domingo, 4 de junho de 2017

A cena que mais me marcou

A cena que mais me marcou, desde que sou veterinária, aconteceu há duas semanas. 

Uma das vantagens do meu trabalho é que tenho sempre mil histórias para contar. Algumas são bastante caricatas e engraçadas, mas outras são daquelas que fazem chorar baba e ranho. Tenho por hábito contar as piores às minhas melhores amigas, por mensagem escrita. Só a parte de escrever e reviver as situações faz-me ficar emocionada. 

Esse dia parecia estar a começar normalmente. Ia atendendo as pessoas que estavam na sala de espera com alguma tranquilidade, até que chega uma rapariga de 11/12 anos a pedir ajuda e com a camisola manchada de sangue e um cachorrinho nos braços. Fomos logo para a sala de cirurgia, porque o bichinho vinha em paragem cardio-respiratória e com evidente traumatismo craniano. Comecei logo a fazer massagem cardíaca, enquanto a minha colega me arranjava um tubo endotraqueal, para começarmos a dar suporte de oxigénio. Quando fui para entubar, já era impossível e apesar do meu coração partido tive de engolir tudo isso e dizer à miúda que não tínhamos conseguido trazê-lo de volta. Só de me lembrar da tristeza estampada na cara da rapariga as lágrimas vêem-me aos olhos. Perguntei se havia alguém a quem pudesse ligar e tentei dizer-lhe algumas palavras de conforto, embora saiba que numa altura daquelas doí demais e que ela não deve ter ouvido nada do que lhe disse. 

Mais tarde, ficamos a saber o que tinha acontecido antes. A miúda ia a atravessar a estrada, NA PASSADEIRA, quando vem um carro a alta velocidade (a avaliar pelas marcas de pneus na estrada), que por sorte não a atropela, mas que atinge mortalmente o cãozinho que ia um pouco à frente da rapariga. Segundo uma vizinha, que estava no 6º andar e assistiu à cena toda, o carro preto parou um pouco à frente. Depois de ver que tinha atingido apenas o cão foi embora, sem prestar auxilio à criança, que estava sozinha e no meio do pânico teve a coragem de agarrar no bichinho e vir a correr para a nossa clínica que ficava a uns 100 metros do local. Infelizmente ninguém conseguiu a matrícula do carro. 

Não é novidade nenhuma, que as pessoas estão cada vez piores, mas estamos a falar de uma criança e o seu animal de estimação! Como é que há gente capaz de cometer esta barbaridade de fugir sem ajudar?! Sim, porque apesar de ter atingido o cão e não a miúda, não deixa de ser uma barbaridade e um crime! 

Fico doente com estas situações. Não é algo a que alguma vez me queira "habituar". Prefiro continuar a sentir, como sinto estas coisas. Não "é a vida". Recuso-me simplesmente a calar-me e a não denunciar estas coisas atrozes que vou vendo no meu dia-à-dia.  

3 comentários:

Manuel João Cruz disse...

Boas, Luísa.

Sigo o teu blogue há anos (desde o tempo da UTAD). Gosto sempre de ver o que andas a fazer e as tuas aventuras no mundo da medicina veterinária.

Recentemente eu resuscitei o meu blogue. Se puderes dar um follow de volta pode ser que encontres algo que te interesse.

Mudei o foco de política/comentário social para literatura/poesia.

Abraço e obrigado

Ana Luisa Alves disse...

Olá! Ao tempo! Já subscrevi! Boa sorte com o projecto, vou seguindo! Beijinho!

Manuel João Cruz disse...

Já vi, muito obrigado :D

Abraço