terça-feira, 1 de setembro de 2020

"Becoming - A Minha História" - Michelle Obama

Este ano tem sido dedicado à leitura de obras de não ficção. Não tem sido de propósito, apenas acontece que são esses os livros que me tem vindo parar às mãos. No entanto e, apesar da quarentena, não tenho lido muito. Como já referi anteriormente, não tive uma quarentena típica, com muito tempo livre (e ainda bem...). 

Apesar de ser apenas por acaso, a curiosidade para ler a autobiografia da Michelle Obama existia. O contexto político que caracteriza a actual América é no mínimo estranho e no máximo inacreditável. Tinha curiosidade em saber como é que se passava dos Obama para os Trump. O que correu mal?

Claro que a leitura de Becoming não me ajudou a compreender os acontecimentos que aqui conduziram. Para isso era preciso um conhecimento bem mais profundo do mundo americano, da sua história (curta, mas rica) e dos meandros do mundo da política. Isso está longe de me assistir. 

Acabei por ler esta autobiografia não para compreender, mas para desfrutar. Optei por ler a versão inglesa original, que está bem escrita, é simples e cativante. 

É na primeira pessoa que ficamos a conhecer o contexto em que a 44ª primeira-dama americana cresce, os obstáculos que a sua geração enfrenta e as pessoas que a marcam. Só a meio do livro é que o nome Obama surge pela primeira vez, como o homem charmoso, que chega para ser o estagiário de Michelle, numa conceituada firma de advogados....marota! 

Mas desenganem-se. Este não é de todo um livro sobre Barack Obama. É um livro sobre uma grande mulher, com uma identidade muito única, forte e simultaneamente frágil. Uma mulher que como todas nós, vive confrontada com escolhas difíceis e contraditórias, que muitas vezes ameaçam a sua verdadeira identidade.

Este livro deu-me uma perspectiva interessante não só acerca dos bastidores da casa branca e da política americana, mas também da sociedade americana e dos preconceitos que a minam. Talvez sejam esses mesmos preconceitos que nos conduziram até ao dia de hoje. Baseado no que li neste testemunho, acredito que os Obama tenham realmente tentado. As pessoas são simplesmente impacientes e os interesses dos mais ricos são difíceis de ultrapassar. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O "Efeito Pandemia" na Veterinária

Nunca na história da humanidade existiu um momento em que o mundo inteiro falou de um só assunto - da Pandemia COVID-19. Os seres humanos uniram-se contra a falta de descriminação da doença. Ela mata ricos e pobres; brancos e pretos; velhos e novos. Não escolhe quem infecta. O medo falou alto e toda a gente se fechou em casa. As ruas ficaram desertas. As clínicas veterinárias encheram. 

Durante estes últimos tempos mantive-me em silêncio, não porque não tivesse o que dizer (toda a gente adora opinar), mas porque o "efeito pandemia" assolou de forma drástica o meu dia-à-dia e o de muitos colegas veterinários e profissionais da área.


Os últimos quatro meses foram literalmente o sonho e o pesadelo de todos os veterinários - de repente os animais estavam todos a precisar de assistência médica. Alguns já estavam doentes há meses, em sofrimentos ignorado pelos seus "cuidadosos" donos; outros precisavam apenas de uma desculpa para sair de casa, como cortar unhas curtas, ou colocar a vacina da Raiva em dia, quando o prazo já tinha caducado há mais de 5 anos atrás. Tudo era urgente e nada podia esperar para depois da quarentena.

Foi preciso controlar as pessoas. A Ordem dos Médicos Veterinários de Portugal implementou algumas directrizes, começando, por exemplo, por desautorizar o atendimento de cuidados de saúde não urgentes. Todos passamos a trabalhar por marcação e os donos começaram a ficar à porta da clínica. A nossa indumentária mudou. Parecíamos uns astronautas e as nossas mãos secaram de tanto pó talco de luva e álcool. As equipas foram divididas e isoladas e as clínicas que não tinham pessoal suficiente tiveram de reduzir o seu horário, ou mesmo de fechar; os veterinários que trabalhavam em serviço domiciliário viram os seus serviços suspensos, ou criticados pelos colegas.

As dúvidas surgiram - o que era urgente e o que não era? Um corte de unhas podia ser considerado urgente, se na sua ausência as unhas revirassem e magoassem a pele do animal; uma vacina era essencial, se implicasse a protecção do animal e do seu dono, principalmente no caso das doenças transmissíveis aos humanos. O conceito de urgência era variável de clínica, para clínica. Surgiram acusações e guerras entre colegas veterinários. Nem dentro da nossa classe a solidariedade humana prevaleceu. Os tutores migraram para outras clínicas, mediante a disponibilidade das mesmas (ou não) para atenderem os seus caprichos. A Ordem remeteu para a direcção clínica de cada espaço a decisão de continuar a vacinar. Houve quem temesse a ocorrência de surtos de Parvovirose, Esgana, ou Leptospirose. Para muitos da nossa comunidade não fazia sentido suspender cuidados de profilaxia por tempo indeterminado. 

Lentamente e com grande poder de adaptação, os veterinários por todo o mundo, foram-se moldando às novas regras. As consultas demoravam o dobro do tempo, porque não havia um tutor para ajudar a segurar do patudo em cima da mesa, ou para o acalmar. Os telefones não paravam de tocar, a uma velocidade que, com a diminuição das equipas, era impossível de dar resposta. Foram-se adaptando também ao grau de maluquice dos tutores, que dadas as circunstâncias sociais (penso eu), muitas vezes demonstravam falta de paciência, compreensão, bom senso, ou mesmo educação.  

Era tão bom que a Pandemia realmente aproximasse os seres humanos e os tornasse solidários, mas cedo se percebeu que isso era uma ideia inocente e cor de rosa, que os media queriam que comêssemos. No geral, os seres humanos continuaram e pioraram os seus comportamentos habituais de egoísmo.

Quando a quarentena terminou e as restrições começaram a ser aliviadas, recebemos a segunda vaga de loucura - a taxa de adopções/compra de animais disparou durante o confinamento e todos os bebés apareceram para iniciar as vacinações. Quem não ama bebés? Também nesta fase, todos os cuidados de saúde pendentes, como castrações, vacinações não prioritárias, desparasitações, etc etc, começaram a ser colocadas em dia. A loucura de trabalho continuou. 

Estamos em Portugal, em Agosto de 2020, e as coisas começaram a acalmar. Depois de semanas a sair 30 a 45 minutos depois da minha hora, estou finalmente a conseguir processar a loucura destes tempos. Admiro-me como nunca tive medo da doença e começo a achar que foi simplesmente porque não havia tempo para ter medo. Os meus colegas e os animais precisavam de mim.

Esta não é uma publicação de lamento; pelo contrário. É a prova concreta de que, apesar de muitos momentos de dúvida, que acredito que muitos colegas veterinários sintam ao longo da sua carreira, a nossa profissão é das mais maravilhosas e gratificantes do mundo. Em momentos atípicos da história da humanidade, em que muita coisa pára, as nossas ferramentas intelectuais e práticas, permitem-nos continuar a oferecer uma ajuda valiosa às pessoas e à sociedade. Mesmo que estas não reconheçam o nosso valor, no final do dia o nosso foco deverá ser sempre o bem estar dos animais que assistimos e a nossa consciência deverá sentir-se tranquila.  



 



sexta-feira, 24 de abril de 2020

Cancro em animais de companhia - Existe!

Cancro é uma palavra com uma conotação negativa, pelas razões óbvias. Muitos de nós já tivemos um familiar, um amigo, ou um conhecido que teve de enfrentar a doença, com tratamentos drásticos e dolorosos, com desfechos por vezes vezes trágicos. 

Em medicina veterinária a palavra cancro, ou doença neoplásica (termo científico), também faz parte do nosso dia-à-dia. Muitas vezes, à semelhança do que acontece com os humanos, quando é encontrado num estadio precoce, conseguimos actuar e trazer ao animal um estado de remissão que se pode prolongar por anos. 

O que infelizmente está contra nós, é o facto da medicina preventiva ainda não ser uma realidade para todos os animais de companhia e para todos as suas famílias. A maior parte dos nossos animais geriátricos vai ao veterinário com a mesma frequência com que ia, quando era cachorro: uma vez por ano para apanhar a vacina anual. Ás vezes simplesmente não há dinheiro para mais e daí ser importante ponderar sempre a adição de um companheiro de quatro patas à nossa família. 


O que ainda acontece actualmente em Portugal, e em muitos outros países, é que quando a doença é encontrada, já é tarde. 

No entanto, quando uma doença neoplásica é encontrada num estadio precoce, e chega a hora de falar das opções terapêuticas com os tutores, o que acontece é que à mera referência à palavra "quimioterapia", existe uma retracção imediata. Os tutores ficam claramente assustados e muitos ainda optam por não avançar com essa opção terapêutica, por medo do sofrimento a que podem submeter o seu companheiro canino, ou felino. Imaginam que o animal se vai sentir terrivelmente mal, vai ficar sem pêlo, nauseado e sem forças. Algumas pessoas revivem experiências pessoais traumatizantes, como ver um ente querido a passar por toda a adversidade da doença neoplásica. 

No entanto, na maior parte dos casos, a quimioterapia não tem esses efeitos secundários nos nossos animais e pode realmente ser a diferença entre salvar, ou não o nosso querido amigo. A parte mais difícil é realmente ter toda a família a bordo, com uma decisão informada e consciente e, acima de tudo, com expectativas realistas. 

Esta é uma realidade que a Dr.Sue Ettinger tenta explicar aos donos, desmistificando a doença e tentando trazer algum optimismo a uma palavra tão cheia de negatividade - Cancro. A Dr.Sue, também conhecida como The Cancer Vet, tem um canal de Youtube, que descobri há poucas semanas, que realmente é muito útil e informativo para todos os tutores que tem animais e querem simplesmente aprender mais, ou que estão a passar por situação de diagnóstico de uma patologia neoplásica. O canal tem informação actualizada e baseada em bibliografia de confiança, o que é outro ponto a favor 

Deixo aqui um video de uma sessão de quimioterapia em cães, para que seja desmistificada a ideia de que é algo extremamente traumático e doloroso, ou inclusive o mito de que é algo que não existe em medicina veterinária:


sábado, 11 de abril de 2020

Cadernos de Lanzarote vol. I e vol. II - José Saramago

Uau! Um post sobre livros, num blog de livros, onde ultimamente se tem falado de tudo
menos de livros... Finalmente, dizem vocês. 

Sim - finalmente! - é também a palavra que escolho para iniciar este post. Venho arrastando (isto soa muito português do Brasil...) a leitura dos Cadernos de Lanzarote há meses. Mais precisamente, desde Março de 2019. 

Antes de expressar a minha opinião sobre os livros, é importante dizer que Saramago é um dos meus escritores preferidos. Em 2018 visitei A Casa, em Lanzarote, e foi um momento de emoção. Nessa visita comprei dois livros do autor - A Jangada de Pedra e o primeiro volume do Cadernos de Lanzarote. Tinham como bónus o carimbo oficial d' A Casa de Saramago, por terem sido comprados lá. Achei que seriam uma recordação duradoura. 


Embora A Jangada de Pedra ainda esteja por ler, em Março de 2019, decidi começar a explorar os Cadernos. Estes não são mais do que uma espécie de diário, ou se preferirem algo menos narcisista (palavras de Saramago, não minhas), um conjunto de crónicas do dia-à-dia do escritor, compiladas em 5 volumes que compreendem os anos de 1993-1998.

Nestes cadernos podemos encontrar de tudo um pouco. Desde breves descrições da vida familiar de Saramago, até críticas literárias, ou algumas passagens de cartas enviadas ao autor. Há também uma série de comentários, ou reparos, mais ao menos sarcásticos em relação a personagens com as quais Saramago não alinhava o seu chackra. Esses comentários conseguiram arrancar-me um, ou outro sorriso, mas possivelmente só funciona, se vocês forem de esquerda, ou não gostarem de "múmias"

Apesar da evolução lenta da leitura, foram dois livros de que gostei. Não pude deixar de reparar que apesar de uma origem humilde, o escritor cultivou gostos bastante eclécticos, como é o caso da ópera, referência frequente nestes cadernos. 

As passagens de que mais gostei, para além das críticas mordazes ao modo que Portugal estava a ser comandado, referem-se às coisas simples da vida. A chegada de Pepe, o cão de Saramago e Pilar, as visitas e passeios que faziam com os amigos, etc. 

Para quem gosta de Saramago, os Cadernos são uma estreita, ainda que fascinante janela, para a sua mente. Recomendo para qualquer fã, ou mesmo para aqueles que simplesmente querem compreender melhor o homem. 



terça-feira, 7 de abril de 2020

Passatempo "Dia Mundial da Terra - 22 de Abril (National Geographic)"

Bom dia a todos! Espero que se encontrem bem e animados (dentro do possível).

No dia 22 de Abril comemora-se o Dia Mundial da Terra. Esta data foi criada pelo senador americano Gaylord Nelson, em 1970. Tinha como finalidade consciencializar a população para os problemas associados à poluição, conservação da biodiversidade e outras preocupações ambientais para proteger o nosso querido planeta Terra

Num momento em que a nossa preocupação se prende com questões de saúde pública, que exigem uma resposta imediata e urgente, não podemos esquecer-nos dos problemas que podemos ainda evitar. Ainda vamos a tempo de mudar e de evitar situações como a que hoje vivemos. A pandemia veio colocar a descoberto a fragilidade do SNS do mundo ocidental. De que estamos à espera, para exigir que quem está no poder se preocupe antecipadamente com o futuro do Planeta Terra? Se agirmos preventivamente, não será preciso remediar.

Para não deixar esta data passar em branco, decidi sortear a edição deste mês da National Geographic (edição portuguesa). Esta é uma edição pouco comum. A revista vem dividida em duas partes inversas, como se fossem duas revistas diferentes; de um lado temos o olhar optimista para o futuro da Terra em 2070; do outro lado temos a visão pessimista. São duas perspectivas que acabam por se complementar e que são muito interessantes de ler, numa altura em que o nosso futura se afigura tão incerto. Podemos ter esperança? Sim, se fizermos por isso.



O passatempo começa hoje, dia 7 de Abril e termina no dia 22 de Abril, ás 00h. Para se habilitarem a ganhar, basta:

1) Seguir o Blog, usando a conta Google;
2)Fazer Gosto/Like da página de Facebook do Baú dos Livros.

Para sortear o vencedor, será utilizada a aplicação Rafflecopter. Os termos e condições podem ser consultadas também na aplicação (em baixo):

BOA SORTE!


a Rafflecopter giveaway

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Oxalá Acordem!


Saudações, caros leitores. Espero que a vossa quarentena esteja a correr bem, que se encontrem saudáveis e que a ansiedade não vos esteja a deixar paralisados de medo.

Medo. Essa sensação que anda a transformar a nossa vida. Caminhamos entre casa e trabalho (ou supermercado, para quem não pode trabalhar), sempre cabisbaixos, silenciosos e sem sorrisos. Sente-se o peso da preocupação em qualquer sítio que se vá. Os supermercados tentam manter-nos calmos. Ouvem-se músicas animadas, mas para onde quer que se olhe, vêem-se pessoas de máscara e/ou luvas. Algo não bate certo. Somos recordados do tempo estranho em que vivemos.

As minhas últimas semanas tem sido passadas entre a clínica e o meu quarto. Felizmente a casa onde estou tem jardim, e a minha cadelinha tem de ser passeada pelo menos duas vezes por dia. No meio desta confusão (por incrível que pareça), consegui finalmente arrendar um apartamento. Mudo-me em Maio. No entanto, não deixo de me sentir solidária com quem tem de partilhar casa com desconhecidos. Talvez seja uma oportunidade para criar amizades improváveis (e forçadas)?

A vida na clínica sofreu mudanças drásticas, como seria de esperar. O nosso trabalho foi reduzido apenas para o essencial e urgente e os tutores dos animais não entram na clínica. A recolha da história clínica é feita na rua, esteja sol, chuva, calor, ou frio. Nós equipados com máscara, luvas, óculos e bata, respeitando sempre a distância de segurança. No início estávamos receosos com a reacção das pessoas - “Será que vão achar que estamos a exagerar?” - Hoje, passadas duas semanas, há tutores que deixam a caixa transportadora com o seu gato à porta e fogem para dentro do carro.

Para quem é introvertido e não aprecia as interacções em consulta, isto é um sonho tornado realidade. Para mim fica tudo mais difícil. Nunca fui particularmente extrovertida (apesar de ser uma tagarela, com quem me sinto à vontade), mas a presença dos tutores é maioritariamente útil. É através das suas histórias e comentários, que conseguimos perceber alguns mistérios associados ao problema do animal. É através da comunicação, que conseguimos perceber o tipo de tutor que temos à frente e quais as suas expectativas. Mais do que ajudar o animal, acabamos por também ajudar as pessoas.

Outra coisa que temos tentado fazer é manter as pessoas em casa. Neste momento de ansiedade e impaciência, é incrível a quantidade de pessoas que liga para agendar cortes de unhas, banhos e tosquias. Obviamente, recusamos o serviço. Não é urgente. Estamos no meio da fase de mitigação e é importante que fiquem em casa e em segurança.

Apesar destas dificuldades, é importante manter a calma e contornar os obstáculos. Mais do que nunca, os médicos veterinários são necessários.

Ao escrever este pequeno comentário acerca dos nossos dias, não posso deixar de me sentir um pouco como uma personagem de um filme de ficção. Aquilo que aqui fica registado, no meio de tanta informação acerca da pandemia, é só mais um testemunho de um ponto de viragem histórico na sociedade ocidental. Isto é história. Depois disto, há muita coisa que não voltará a ser igual.

Oxalá que também venham coisas boas desta pandemia. Oxalá os nossos governantes deixem de ignorar os problemas que realmente interessam: a melhoria dos SNS, o investimento sério na educação e o não ignorar das questões ambientais que põem em risco o futuro do Mundo e dos seus habitantes. Os problemas não se podem ignorar, ou atirar para debaixo do tapete. O que acontece, quando se faz isso, é isto que agora estamos a viver.