sexta-feira, 24 de abril de 2020

Cancro em animais de companhia - Existe!

Cancro é uma palavra com uma conotação negativa, pelas razões óbvias. Muitos de nós já tivemos um familiar, um amigo, ou um conhecido que teve de enfrentar a doença, com tratamentos drásticos e dolorosos, com desfechos por vezes vezes trágicos. 

Em medicina veterinária a palavra cancro, ou doença neoplásica (termo científico), também faz parte do nosso dia-à-dia. Muitas vezes, à semelhança do que acontece com os humanos, quando é encontrado num estadio precoce, conseguimos actuar e trazer ao animal um estado de remissão que se pode prolongar por anos. 

O que infelizmente está contra nós, é o facto da medicina preventiva ainda não ser uma realidade para todos os animais de companhia e para todos as suas famílias. A maior parte dos nossos animais geriátricos vai ao veterinário com a mesma frequência com que ia, quando era cachorro: uma vez por ano para apanhar a vacina anual. Ás vezes simplesmente não há dinheiro para mais e daí ser importante ponderar sempre a adição de um companheiro de quatro patas à nossa família. 


O que ainda acontece actualmente em Portugal, e em muitos outros países, é que quando a doença é encontrada, já é tarde. 

No entanto, quando uma doença neoplásica é encontrada num estadio precoce, e chega a hora de falar das opções terapêuticas com os tutores, o que acontece é que à mera referência à palavra "quimioterapia", existe uma retracção imediata. Os tutores ficam claramente assustados e muitos ainda optam por não avançar com essa opção terapêutica, por medo do sofrimento a que podem submeter o seu companheiro canino, ou felino. Imaginam que o animal se vai sentir terrivelmente mal, vai ficar sem pêlo, nauseado e sem forças. Algumas pessoas revivem experiências pessoais traumatizantes, como ver um ente querido a passar por toda a adversidade da doença neoplásica. 

No entanto, na maior parte dos casos, a quimioterapia não tem esses efeitos secundários nos nossos animais e pode realmente ser a diferença entre salvar, ou não o nosso querido amigo. A parte mais difícil é realmente ter toda a família a bordo, com uma decisão informada e consciente e, acima de tudo, com expectativas realistas. 

Esta é uma realidade que a Dr.Sue Ettinger tenta explicar aos donos, desmistificando a doença e tentando trazer algum optimismo a uma palavra tão cheia de negatividade - Cancro. A Dr.Sue, também conhecida como The Cancer Vet, tem um canal de Youtube, que descobri há poucas semanas, que realmente é muito útil e informativo para todos os tutores que tem animais e querem simplesmente aprender mais, ou que estão a passar por situação de diagnóstico de uma patologia neoplásica. O canal tem informação actualizada e baseada em bibliografia de confiança, o que é outro ponto a favor 

Deixo aqui um video de uma sessão de quimioterapia em cães, para que seja desmistificada a ideia de que é algo extremamente traumático e doloroso, ou inclusive o mito de que é algo que não existe em medicina veterinária:


sábado, 11 de abril de 2020

Cadernos de Lanzarote vol. I e vol. II - José Saramago

Uau! Um post sobre livros, num blog de livros, onde ultimamente se tem falado de tudo
menos de livros... Finalmente, dizem vocês. 

Sim - finalmente! - é também a palavra que escolho para iniciar este post. Venho arrastando (isto soa muito português do Brasil...) a leitura dos Cadernos de Lanzarote há meses. Mais precisamente, desde Março de 2019. 

Antes de expressar a minha opinião sobre os livros, é importante dizer que Saramago é um dos meus escritores preferidos. Em 2018 visitei A Casa, em Lanzarote, e foi um momento de emoção. Nessa visita comprei dois livros do autor - A Jangada de Pedra e o primeiro volume do Cadernos de Lanzarote. Tinham como bónus o carimbo oficial d' A Casa de Saramago, por terem sido comprados lá. Achei que seriam uma recordação duradoura. 


Embora A Jangada de Pedra ainda esteja por ler, em Março de 2019, decidi começar a explorar os Cadernos. Estes não são mais do que uma espécie de diário, ou se preferirem algo menos narcisista (palavras de Saramago, não minhas), um conjunto de crónicas do dia-à-dia do escritor, compiladas em 5 volumes que compreendem os anos de 1993-1998.

Nestes cadernos podemos encontrar de tudo um pouco. Desde breves descrições da vida familiar de Saramago, até críticas literárias, ou algumas passagens de cartas enviadas ao autor. Há também uma série de comentários, ou reparos, mais ao menos sarcásticos em relação a personagens com as quais Saramago não alinhava o seu chackra. Esses comentários conseguiram arrancar-me um, ou outro sorriso, mas possivelmente só funciona, se vocês forem de esquerda, ou não gostarem de "múmias"

Apesar da evolução lenta da leitura, foram dois livros de que gostei. Não pude deixar de reparar que apesar de uma origem humilde, o escritor cultivou gostos bastante eclécticos, como é o caso da ópera, referência frequente nestes cadernos. 

As passagens de que mais gostei, para além das críticas mordazes ao modo que Portugal estava a ser comandado, referem-se às coisas simples da vida. A chegada de Pepe, o cão de Saramago e Pilar, as visitas e passeios que faziam com os amigos, etc. 

Para quem gosta de Saramago, os Cadernos são uma estreita, ainda que fascinante janela, para a sua mente. Recomendo para qualquer fã, ou mesmo para aqueles que simplesmente querem compreender melhor o homem. 



terça-feira, 7 de abril de 2020

Passatempo "Dia Mundial da Terra - 22 de Abril (National Geographic)"

Bom dia a todos! Espero que se encontrem bem e animados (dentro do possível).

No dia 22 de Abril comemora-se o Dia Mundial da Terra. Esta data foi criada pelo senador americano Gaylord Nelson, em 1970. Tinha como finalidade consciencializar a população para os problemas associados à poluição, conservação da biodiversidade e outras preocupações ambientais para proteger o nosso querido planeta Terra

Num momento em que a nossa preocupação se prende com questões de saúde pública, que exigem uma resposta imediata e urgente, não podemos esquecer-nos dos problemas que podemos ainda evitar. Ainda vamos a tempo de mudar e de evitar situações como a que hoje vivemos. A pandemia veio colocar a descoberto a fragilidade do SNS do mundo ocidental. De que estamos à espera, para exigir que quem está no poder se preocupe antecipadamente com o futuro do Planeta Terra? Se agirmos preventivamente, não será preciso remediar.

Para não deixar esta data passar em branco, decidi sortear a edição deste mês da National Geographic (edição portuguesa). Esta é uma edição pouco comum. A revista vem dividida em duas partes inversas, como se fossem duas revistas diferentes; de um lado temos o olhar optimista para o futuro da Terra em 2070; do outro lado temos a visão pessimista. São duas perspectivas que acabam por se complementar e que são muito interessantes de ler, numa altura em que o nosso futura se afigura tão incerto. Podemos ter esperança? Sim, se fizermos por isso.



O passatempo começa hoje, dia 7 de Abril e termina no dia 22 de Abril, ás 00h. Para se habilitarem a ganhar, basta:

1) Seguir o Blog, usando a conta Google;
2)Fazer Gosto/Like da página de Facebook do Baú dos Livros.

Para sortear o vencedor, será utilizada a aplicação Rafflecopter. Os termos e condições podem ser consultadas também na aplicação (em baixo):

BOA SORTE!


a Rafflecopter giveaway

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Oxalá Acordem!


Saudações, caros leitores. Espero que a vossa quarentena esteja a correr bem, que se encontrem saudáveis e que a ansiedade não vos esteja a deixar paralisados de medo.

Medo. Essa sensação que anda a transformar a nossa vida. Caminhamos entre casa e trabalho (ou supermercado, para quem não pode trabalhar), sempre cabisbaixos, silenciosos e sem sorrisos. Sente-se o peso da preocupação em qualquer sítio que se vá. Os supermercados tentam manter-nos calmos. Ouvem-se músicas animadas, mas para onde quer que se olhe, vêem-se pessoas de máscara e/ou luvas. Algo não bate certo. Somos recordados do tempo estranho em que vivemos.

As minhas últimas semanas tem sido passadas entre a clínica e o meu quarto. Felizmente a casa onde estou tem jardim, e a minha cadelinha tem de ser passeada pelo menos duas vezes por dia. No meio desta confusão (por incrível que pareça), consegui finalmente arrendar um apartamento. Mudo-me em Maio. No entanto, não deixo de me sentir solidária com quem tem de partilhar casa com desconhecidos. Talvez seja uma oportunidade para criar amizades improváveis (e forçadas)?

A vida na clínica sofreu mudanças drásticas, como seria de esperar. O nosso trabalho foi reduzido apenas para o essencial e urgente e os tutores dos animais não entram na clínica. A recolha da história clínica é feita na rua, esteja sol, chuva, calor, ou frio. Nós equipados com máscara, luvas, óculos e bata, respeitando sempre a distância de segurança. No início estávamos receosos com a reacção das pessoas - “Será que vão achar que estamos a exagerar?” - Hoje, passadas duas semanas, há tutores que deixam a caixa transportadora com o seu gato à porta e fogem para dentro do carro.

Para quem é introvertido e não aprecia as interacções em consulta, isto é um sonho tornado realidade. Para mim fica tudo mais difícil. Nunca fui particularmente extrovertida (apesar de ser uma tagarela, com quem me sinto à vontade), mas a presença dos tutores é maioritariamente útil. É através das suas histórias e comentários, que conseguimos perceber alguns mistérios associados ao problema do animal. É através da comunicação, que conseguimos perceber o tipo de tutor que temos à frente e quais as suas expectativas. Mais do que ajudar o animal, acabamos por também ajudar as pessoas.

Outra coisa que temos tentado fazer é manter as pessoas em casa. Neste momento de ansiedade e impaciência, é incrível a quantidade de pessoas que liga para agendar cortes de unhas, banhos e tosquias. Obviamente, recusamos o serviço. Não é urgente. Estamos no meio da fase de mitigação e é importante que fiquem em casa e em segurança.

Apesar destas dificuldades, é importante manter a calma e contornar os obstáculos. Mais do que nunca, os médicos veterinários são necessários.

Ao escrever este pequeno comentário acerca dos nossos dias, não posso deixar de me sentir um pouco como uma personagem de um filme de ficção. Aquilo que aqui fica registado, no meio de tanta informação acerca da pandemia, é só mais um testemunho de um ponto de viragem histórico na sociedade ocidental. Isto é história. Depois disto, há muita coisa que não voltará a ser igual.

Oxalá que também venham coisas boas desta pandemia. Oxalá os nossos governantes deixem de ignorar os problemas que realmente interessam: a melhoria dos SNS, o investimento sério na educação e o não ignorar das questões ambientais que põem em risco o futuro do Mundo e dos seus habitantes. Os problemas não se podem ignorar, ou atirar para debaixo do tapete. O que acontece, quando se faz isso, é isto que agora estamos a viver.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Casa em Portugal?

Ser locatário/inquilino em Portugal não está fácil. Nos últimos 2 anos o panorama tem vindo a ficar negro, para quem não tem casa, nem tem possibilidades (ou vontade) de vir a ter. 

Um pouco por todo o país, os preços das rendas duplicaram e, em alguns casos, triplicaram. A comunicação social parece apenas acordar para este problema no início do ano lectivo. Presumo que seja, quando finalmente algum iluminado da direcção de informação se vê aflito para conseguir arrendar um quarto para o filho, ou para a prima do filho. 

A verdade é que o problema da habitação está a tomar proporções ridículas e que se prolongam por todo o ano. É um problema que afecta não só professores e estudantes, mas todas as áreas profissionais (ou quase todas), que não tenham apoio do estado.

Há 6 meses atrás, quando me mudei para os arredores de Oeiras, aluguei um quarto, com água e eletricidade incluídas, por 320€/mês. A casa onde o meu quarto está inserido, tem mais 3 quartos ocupados. Pessoas que eu não conheço, que se cruzam comigo à hora de jantar e, ocasionalmente ao fim de semana. Somos educados uns com os outros, mas é tudo muito impessoal e distante. É uma casa R/c, velha, com humidade, com um único WC e já tivemos a visita de um rato. Porquê que estou aqui? Passo a explicar: antes deste quarto visitei mais três. Nenhum deles me oferecia contrato. Todos eles tinham regras mesquinhas: apenas aceitam trabalhadores de fora do distrito; não podem receber visitas sem autorização; animais de estimação estão interditos; a caixa de correio é exclusiva do senhorio; etc. Todos eles exigiam rendas a rondar os 300 euros/mês. 

Como eu, centenas de pessoas vivem assim e centenas de pessoas pagam mais de metade do seu ordenado para poderem ter um sitio onde se possam sentir em casa. Enquanto deambulo pelos grupos de Facebook de procura de casa, vejo cenas de xenofobia, racismo e descriminação diária. Vejo mães solteiras à procura de quartos, porque não conseguem pagar imóveis completos. Pergunto-me como será crescer assim...num quarto, numa casa cheia de estranhos. 



Actualmente, um T1-T2 nos arredores de Lisboa, com condições aceitáveis, ronda os 700€ mês. Como é que alguém solteiro (ou divorciado) pode suportar algo assim? Falamos de liberdade frequentemente, e eu pergunto: qual liberdade? Vivo com a sensação de que o estado português quer condicionar as minhas escolhas de vida, não me oferecendo opção e forçando-me a seguir a via mais óbvia - um crédito habitação!

E isto leva-me a afirmar o óbvio: não interessa aos políticos falar dos preços do mercado de arrendamento, ou da carga fiscal alta a que os arrendatários estão sujeitos (28% da renda + IMI); interessa sim, que o povo se veja obrigado a ver na compra de um imóvel a solução para a impossibilidade de arrendarem um espaço decente por um valor justo. O crédito habitação vai mantendo a banca feliz - Banca feliz = Políticos felizes.

O problema da habitação em Portugal não é simples. Embora eu continue a achar que deveria existir algum bom senso nas rendas praticadas, como em todos os negócios, sei que isso é uma mera utopia. A culpa não é realmente do senhorio, nem do agente imobiliário e definitivamente, a culpa não é de quem não quer, ou de quem não pode comprar casa. A culpa é do Estado. 

PS - Se souberem de algum T0, T1, ou T2 (Oeiras, Cascais, Odivelas, Sintra, Amadora), como um preço razoável e que passe contrato, por favor digam! XD

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Música é Poesia

Há um sitio onde eu vou, onde ninguém me conhece. Não é um sitio solitário, mas antes um lugar necessário. Um lugar inventado por mim, onde eu me descubro e reconstruo. As  noites são calmas e perco todo o sentido de tempo. Absorvo tudo o que consigo.

Descubro que toda a gente tem as suas razões e a sua forma de ser. Estamos simplesmente a absorver e a libertar o que do nosso dia-à-dia recolhemos. Se eu experimentar respirar bem devagar, expirando e inspirando, continuo a sentir-me um pouco assustada. Percebo que estou lentamente a morrer.

Ao mesmo tempo, este exercício é esclarecedor, porque descobrimos que começamos onde acabamos. Por isso, perco o receio. Fico pronta a levantar voo e a descobrir o mistério que é a vida.


Este texto foi adaptado da letra da música Catch & Release do cantor Matt Simons, uma das minhas músicas preferidas. Na verdade é uma tradução quase completa da canção, mas um exercício de reflexão engraçado, que me deu gosto fazer. A música é poesia.