terça-feira, 26 de setembro de 2017

Vendi a alma "ao diabo" e estou feliz!

Passo a explicar-me melhor: despedi-me da clínica onde estava e fui contratada por uma multinacional espanhola, líder no mercado em produtos e serviços para animais de companhia. É por essa razão que este espaço tem estado tão sossegado. 

Quando tomei a decisão de integrar a equipa de uma empresa multinacional assumi o risco em beneficio da minha vida pessoal. Se há coisa que aprendi no último ano é que grande parte da nossa vida adulta vai ser passada no nosso local de trabalho. Vai sobrar pouco tempo para a vida pessoal e no final é essa parte da vida que realmente interessa. O emprego é só uma necessidade e não o motivo pelo qual estamos aqui. 

Porquê que digo que assumo um risco? Se calhar irei evoluir em clínica de forma mais lenta, uma vez que este projecto é novo e ainda não há uma carteira de clientes fixos. Talvez não vá ver tanta casuística, já que o nosso objectivo é apostar principalmente na prevenção das doenças e educação dos donos. Talvez os colegas olhem para o meu currículo com desconfiança, afinal de contas esta é uma grande empresa. Partem do principio que só o dinheiro interessa. Se calhar eu não serei uma especialista de renome internacional no mundo da veterinária, ou até pode ser que venha a ser. Quem sabe.

Talvez por estas e outras razões isto seja arriscado num inicio de carreira, mas era o que eu precisava. Acabaram-se as horas extra não remuneradas, as noites sem dormir e as urgências ao fim de semana e feriados. Agora tenho tempo para estar com aqueles que amo e que fazem a vida valer realmente a pena! E não tive de emigrar (para já). 

Daqui a uns tempos voltamos a falar. 


domingo, 24 de setembro de 2017

"Catch-22" - Joseph Heller (uma "mais ao menos" opinião)

Raramente desisto de um livro. Posso demorar meses a terminar, mas detesto desistir e, acima de tudo, detesto emitir opiniões baseadas em partes de livros que li, mas sinto que tenho algo a dizer depois de ler 20% do Catch-22.

Até pode ser considerado uma obra-prima, mas para mim foi um martírio desde o inicio. O facto de ter optado por ler a versão original em inglês se calhar também não ajudou. 

A "história" deste livro acontece durante a fase final da Segunda Grande Guerra. Acompanhamos Yossarian, um bombardeador da força aérea americana. Escrevo "história", porque pelo que percebi, não há um enredo, mas antes um conjunto de episódios, supostamente engraçados, em torno das personagens que compõem o acampamento e a realidade distorcida, onde Yossarian habita.

Muitos destes homens não querem morrer e por isso não querem voar. A premissa é que se deve ser louco para se querer voar. Se conseguirem que um médico os considere louco não tem de voar. No entanto o "catch" é que se estão interessados em convencer o médico de que são realmente malucos, significa que na realidade não o são, porque só os loucos querem voar. 

Ideia lógica. É suposto este livro ser engraçado, mas não me ri uma única vez e cada página foi uma seca brutal, já para não falar da confusão de personagens, pior que a Guerra dos Tronos. O mais certo era ainda não estar pronta para este livro. Talvez seja tudo uma questão de timing, ou talvez seja suposto haver quem não goste. 



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Quando a universidade acaba - coisas que eu gostava que me tivessem avisado.

Há um ano atrás estava em processo de conclusão e entrega da dissertação de mestrado. Olhando para trás parece que foi há muuuito tempo. O que é certo é que estava longe de estar pronta para o pós-universidade. 

Foram 6 anos a marrar e a viver de um orçamento limitado, oferecido pelos pais. O que eu mais queria era despachar-me e começar a viver a minha vida, economicamente independente a fazer aquilo que gostava e sem ter de consultar ninguém; Comprar livros sempre que quisesse, viajar e conhecer o mundo, decorar o meu quarto como eu queria, ter mil animais, fazer uma tatuagem rebelde, etc etc. Que inocente. Porquê que ninguém nos prepara para o que realmente acontece (ou porquê que não ouvimos??).

Quando entreguei a tese corri a arranjar um emprego e consegui-o muito facilmente. Não pensei seriamente se seria o ideal para mim, porque na altura eu queria era começar! E comecei. No espaço de dois meses, tinha acabado o curso, estava inscrita na Ordem dos Médicos Veterinários, tinha o meu primeiro emprego, mudei de cidade e arranjei o meu apartamento com o meu namorado, estava a fazer as primeiras cirurgias sozinha (coisa que não acontece em todo o lado...tive muita sorte nesse aspecto) e sentia-me acelerada. Talvez demais. 

Lentamente a depressão começou a instalar-se. Não ajudou o facto de uma semana depois de me mudar, o Figo (o meu gato de 13 anos) morrer de forma súbita. A verdade é que até aquele momento o meu objectivo tinha sido acabar o curso e começar a trabalhar. Desde o infantário, que o meu ano estava planeado, de acordo com o calendário escolar. Havia uma ordem nas coisas: 1º ano, 2º ano, 3º ano, 4º ano....12ºano, 1º ano de universidade... Agora que estava tudo encarreirado, sem testes e sem notas finais, senti-me perdida. Não tinha nenhum objectivo. Os dias foram-se repetindo, as horas extra foram se acumulando e a minha frustração e desmotivação foram crescendo. 

Acima de tudo eu não tinha conseguido prever que a veterinária não ia chegar e que ia, inclusive, tentar roubar-me a identidade. Fazia-me falta a bicicleta, a corrida, o tempo para ler, os vídeos parvos e os amigos para conviver. Outra coisa que também não ajudava era comparar o meu trajecto profissional e satisfação ao dos meus colegas recém-licenciados. "Ele está feliz...também deveria estar." Não. Toda a gente é diferente e toda a gente precisa de tempo, para perceber o que o faz feliz. Adoro ser veterinária, mas gosto ainda mais de não ser só isso.

Gostava que alguém me tivesse avisado, que quando acabasse o curso eu não ia fazer a mínima ideia do que queria, ou de para onde ia. Que ia errar, escolher mal, precipitar-me e arrepender-me, mas que ia sobreviver e ultrapassar. Acredito que existam aquelas pessoas super ambiciosas, com uma vontade de ferro e ganas de ser especialista em xyz. Eu só quero ser feliz e continuar a sentir-me curiosa, não apenas em relação à minha profissão, mas também no meu dia-à-dia. Sei lá o que se vai passar...




 

domingo, 3 de setembro de 2017

"As Serviçais" de Kathryn Stockett

"As Serviçais" estava na minha lista de leitura há bastante tempo...tipo há anos. Este é um livro sobre a vida das criadas negras, no estado sulista do Mississípi, nos Estados Unidos. Aqui as leis de segregação eram levadas muito a sério, e além disso o lugar das mulheres (pretas, ou brancas), estava bem estipulado. Ai daquela que resolvesse questionar a sociedade!  

A história é nos apresentada sob a perspectiva de três mulheres diferentes: Aibileen, uma mulher de meia idade, conformada com a sua posição de criada negra; Skeeter, uma jovem branca aspirante a escritora, que luta contra a perspectiva de ter de se tornar numa simples dona de casa; e Minny, a antítese da calma e ponderada Aibileen, com uma língua afiada e uma vontade de ferro. Estas três mulheres unem-se para criar a sua forma secreta de protesto - um livro, onde sob anonimato e identidade falsa, relatam como é ser negra e trabalhar para as mulheres brancas.

Já tinha visto o filme, com a fantástica actriz Viola Davis no papel de Aibileen, mas ainda assim vale muito a pena ler "As Serviçais". A história no grande ecrã está bastante fiel, mas, como é lógico, é impossível introduzir em duas horas e pico todos os pensamentos e detalhes desta história e das suas personagens. 

Gostei da forma como intercalam os capítulos sob a perspectiva destas três mulheres e como abordam temas interessantes, recorrendo a uma série de episódios aparentemente banais, não só o problema do racismo e segregação racial, mas também a emancipação e a desigualdade entre sexos. No entanto existiram algumas coisas que não gostei. 

Começo por falar da tradução do título de "The Help", para "As Serviçais". Eu compreendo que o título "A Ajuda" não fizesse sentido em português, mas o que raio são "serviçais"?! Qual era o problema de optar por "As Criadas"? Ou então, manter a coerência do título e chamar-lhe de "Ajudem", já que (spoiler alert), "The Help" é o nome do livro secreto...neste caso o título era um bocadinho importante demais, para ser distorcido desta forma.

A personagem de Skeeter também me deixa com um sabor agridoce na boca. Acho que há demasiadas contradições na sua personalidade, que se reflectem na história e que acabam por irritar. Esta rapariga sempre cresceu com as suas amigas brancas, membros da liga xpto, mestres em boas maneiras e aulas de etiqueta e cujo único objectivo era casar com um homem rico e fazer festas de angariação de fundos, para os meninos pobres de África (a ironia...). Todas elas foram criadas por uma criada negra e o que apenas distingue Skeeter dessas miúdas é o facto de ter tido uma educação superior e ser ligeiramente menos bonita. Depois de voltar da universidade Skeeter continua a querer agradar a essas raparigas e a tentar incluir-se na sociedade onde cresceu e é isso que para mim não faz muito sentido. Se a única coisa que a distingue delas é a educação superior, porquê que só ao escrever o livro é que se apercebe da injustiça e desigualdade social à sua volta? Falta aqui qualquer coisa. Acho que é carácter!  

Talvez isto tenha sido intencional e a escritora quisesse apenas associar a mudança e crescimento de Skeeter à escrita simultânea do livro secreto, mas parece um ligeiro desmazelo na construção da personagem, quando comparamos com a complexidade da aparentemente calma Aibileen. 

Apesar de não ser perfeito, é uma boa história, bem contada e que toca em assuntos que, ainda hoje, causam comichão a muito boa gente. 

Agora vou só ali limpar a cozinha e estender a roupa, que o meu marido pode não gostar que eu tenha um blog e descuide as tarefas domésticas.

Tatá! *