quarta-feira, 18 de maio de 2011

Days of Heaven: A Hell of a Movie


FICHA TÉCNICA
Título: Days of Heaven
Ano de Lançamento: 1978
Realizador: Terrence Malick
Origem: EUA
Duração: 95 minutos.
Elenco: Richard Gere, Brook Adams, Sam Shepard e Linda Manz
Depois de acompanhar a histeria em torna da nova obra de Terrence Malick, a curiosidade em saber o porquê de tanta antecipação tornou-se insuportável. Prescrição médica: ver um dos seus filmes. A escolha não foi muito difícil, Malick facilitou-me o trabalho dando-me para escolher apenas meia dúzia de filmes, fruto de 68 anos de vida e 42 de cinema. Escolhi este simplesmente porque já tinha lido sobre todos os outros e, neste mundo crescentemente mediatizado, é difícil ver alguma coisa, ou ouvir alguma coisa, ou até sentir alguma coisa verdadeiramente nova, sem sermos coagidos pelo que outros viram, ou ouviram, ou sentiram antes de nós.
Dito isto, vamos ao filme propriamente dito. Ao vê-lo não consegui afastar a dúvida: “Será que estou realmente a gostar?” Esta dúvida pode parecer estranha, porque se eu não souber do que gosto, quem saberá? (a citar um anúncio da matinal… a que ponto cheguei….) Mas depois de ver o filme concluí que não sabia se estava a gostar porque simplesmente não sabia o que estava a ver. A linguagem cinemática de Malick, se é que se pode depreender um estilo a partir de um único filme, é completamente alienígena, pelos meus padrões. A premissa do filme é simples, é contada linearmente no entanto o que estava a ver causava-me dúvidas. Depois de o acabar de ver isso não mudou.
Como disse, a premissa é simples. O filme passa-se pouco antes da Primeira Grande Guerra. Nos arredores de Chicago, Bill (Richard Gere) mata um superior e é forçado a fugir. Leva consigo a irmã mais nova, Linda (Linda Manz) e a namorada/amante, Abby (Brooke Adams). Arranjam trabalho num enorme campo de trigo onde Bill diz a toda a gente que Abby é sua irmã, para que não façam perguntas indesejadas (uma incongruência destinada a dar o rumo pretendido ao filme). O dono do campo (Sam Shepard, simplesmente tratado por Agricultor) apaixona-se por Abby e pede-lhe para ficar, mesmo depois da colheita acabada. Bill fica a saber que o Agricultor tem uma doença terminal e incita Abby a aceitar casar com ele, para lhe ficarem com a fortuna. Isto não corre exactamente como planeado, porque o coração do Agricultor recusa-se a deixar de bater. Billy e Abby não conseguem esconder totalmente a sua relação o que causa o Agricultor a desconfiar deles e leva à saída de cena de Bill, que depois volta no ano seguinte (deduzo eu), para as novas colheitas. E a partir daqui começa o terceiro acto, de proporções bíblicas, em que todos os sentimentos e discussões acumulados acabam por explodir.
Esta descrição parece extremamente melodramática, sentimental e, diria até, lamechas. Mas parece-o meramente porque me faltam as qualidades literárias para descrever o que vi na perfeição. O filme tem até sido criticado (injustamente) por mostrar os sentimentos de passagem, ao de leve. Essa crítica tem fundamento, não sentimos o que as personagens sentem, porque as vemos ao longe filtradas pelos olhos e transmitidos pela voz de um narrador. Não se trata de um narrador omnisciente, uma encarnação de um deus que tudo vê, tudo ouve e tudo (que interessa para o desenvolvimento do filme) nos conta; nem sequer de um relato na primeira pessoa de um ou ambos os intervenientes principais. É, sim, o relato de uma observadora, embora presente na acção, distante dos eventos principais; é, acima de tudo, o relato de uma criança.
Sem falar de si, conta-nos tudo o que precisamos de saber sobre ela e sobre a sua história. A sua narração parece-se com um monólogo mal ensaiado, de alguém que dificilmente ganharia a vida a fazer narrações; é tão natural que impressiona. Ela não nos conta o que está a acontecer, mas fala de diversas coisas, muitas vezes independentes das que se está a passar no ecrã. A sua voz é para este filme, aquilo que a música é para 2001 – A Space Odissey.
Outros dois aspectos impossíveis de não referir, são o estilo visual, para o qual contribuíram Nestor Almendros e Haskell Wexler, e a sonoplastia, obra do infalível Ennio Morricone. Ambos são essenciais, como são sempre – um filme surdo-mudo não seria grande filme – mas neste filme estão tão bem articulados, com um uso de quase unicamente imagens exteriores e de músicas que nos remetem para o Godfather, que não as referir seria um crime.
Para terminar, gostaria de falar da mensagem do filme. Mas não posso, porque simplesmente não sei qual é. Podia tentar adivinhar (e tentei), mas só encontraria (e encontrei) respostas pálidas para um mistério que me parece muito maior. Claro que o filme é um contraste entre pobreza e riqueza, um retrato crítico da sociedade industrializada ao mesmo tempo que a contrapõe com a natureza, claro que também é um triângulo amoroso, a história de aprendizagem de uma criança; claro que o filme é tudo isso e ainda mais. Mas a soma de todas as partes é muito mais que isso. O que é? Não sei. Talvez ainda descubra.

2 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Muito bom o seu blog. Parabéns.

O Falcão Maltês

Roberto Simões disse...

Uma obra-prima magistralmente realizada, fotografada e montada. Pura poesia, que atinge a monumentalidade com a banda sonora de Ennio Morricone.

Roberto Simões
CINEROAD