sábado, 14 de setembro de 2013

5 razões para não gostar de Saramago

José Saramago é um nome que causa a muitas pessoas algum grau de azia. O mesmo acontece comigo, sempre que alguém me fala de Margarida Rebelo Pinto, talvez um dia aborde aqui esse tema; uma coisa é certa, só existem duas posições possíveis no que diz respeito ao Nobel português: ou se adora, ou se detesta.

Embora eu me encontre no primeiro grupo, procurei perceber como é que alguém pode não gostar deste escritor e cheguei às seguintes conclusões:

1) A primeira, e mais óbvia, razão para detestar Saramago é não o saber ler e atirar as culpas para o facto de ele ter "uma pontuação estranha". Passamos anos na escola a ser formatados, acerca de como posicionar correctamente vírgulas, pontos finais, travessões, etc, etc. Chega este senhor aqui e escreve como lhe apetece, sem obedecer às regras de ouro, que durante tantos anos nos foram incutidas. Eu consigo compreender como é que isto enraivece muita gente. Mas penso que conseguir criar um novo estilo de escrita, que, se lermos atentamente e sem preconceitos, conseguimos perfeitamente entender, é ainda mais complicado do que inventar uma nova linguagem, como fez por exemplo J.R.R. Tolkien. 
Ontem ocorreu-me que se escrever é uma arte como a pintura, Saramago é como Picasso; ele não se limita a "pintar" o que vê, ele "pinta" como entende que realmente se deve pintar e sem ser limitado por aquilo que seria a correcta forma de o fazer;

2) A escolha do escritor em mudar de país de residência, ainda para mais recaindo a escolha sobre nuestros hermanos, não agradou aos mais patrióticos. Embora não concorde com a sua posição iberista, devido ao meu próprio orgulho em ser portuguesa, e também porque penso que nunca existiria um verdadeiro país, já que a própria Espanha se encontra minada de regiões que anseiam pela independência, apoio a sua decisão. Esta foi tomada após tudo ter sido feito pelo Estado português, para impedir que a obra "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" representa-se Portugal num concurso europeu, por alegadamente ir contra a fé católica. Ora, o Estado não é teoricamente laico? 
Se o meu próprio país negasse as minhas convicções e me censurasse, não hesitaria em mudar-me, ainda para mais se metade da minha família fosse espanhola;

3) Ser um escritor que declara abertamente o seu ateísmo e que denuncia os podres da Igreja Católica (basta ver pelo ponto anterior, como isso cai mal a muito boa gente cof-cof);

4) Fazer parte do programa escolar. Não gostar de Saramago é para muitos adolescentes uma forma de serem "fixes". Mal eles sabem, que parecem simplesmente uns cordeiros que seguem o rebanho. Quem realmente marca a diferença é quem tem opiniões próprias e justificadas.

5) Ser José Saramago, o prémio Nobel português. É triste, mas penso que a inveja é, hoje em dia, o principal problema e a raiz de todos os problemas do nosso país, das nossas famílias e da nossa vida. Sendo este escritor genial, muita gente odeia-o pelo simples facto de o ser.

9 comentários:

Sofia Duarte disse...

Também existem pessoas que detestam Saramago porque acreditam que a Língua Portuguesa é algo grandioso demais, com todos aqueles detalhes que lhes dá características, para ser assim chutada para canto.

Uma coisa é tu pintares um quadro, deixares que o teu lado artístico te faça revelar coisas novas. Outras é fazer o que fazes com a tua herança, a tua língua materna.

Além, claro, do cansaço que dá olhar sequer para um livro dele. Não porque não se sabe ler ou a pontuação é diferente. Não pelos seus ideais. Simplesmente porque jamais na vida gostarias de voltar a lê-lo.

As pessoas têm o direito de ter os seus próprios gostos e estilos de leitura. Não vai ser porque editou livros e foi prémio nobel que eu irei alguma vez ver suas letras novamente.

Prefiro obras que não deixam um vácuo dentro de mim.

Alu disse...

Olá Sofia! Bem vinda ao Baú!

Sim, era isso mesmo que pensavam as pessoas que detestavam Picasso. Elas achavam que não era correcto deturpar a imagem real, destruir o realismo.

Entendo o que queres dizer, mas discordo. Quando dizes "atirar a língua portuguesa para canto", acho que não foi isso que Saramago fez, ou pretendeu fazer. As palavras e a pontuação estão lá na mesma. Só que apresentadas de um modo diferente. Se traduzires para outra língua, inglês por exemplo, também continua patente essa forma de escrever e penso que isso faz parte do estilo que ele construiu e que o distingue de todos os outros. Os mais tradicionalistas não gostam e são livres de não gostar.

Quanto a reler obras dele, acho que isso depende de pessoa para pessoa. Eu como gosto, gostava de reler. Agora existe uma que dificilmente quereria reler, que é "O Ano da Morte de Ricardo Reis", mas essa é uma excepção em todos os outros que já li dele.

Cumps!

Sara disse...

Isso da pontuação não passa de uma falsa questão. Quando li o Memorial do Convento custou-me o primeiro capítulo depois já não dava por isso. Há muitos autores que não escrevem conforme as regras. Por exemplo o Llosa escreve diálogos dentro de diálogos...É bem mais difícil.

Eu adoro o movimento dos diálogos de Saramago...É como se estivessem mesmo a decorrer ao nosso lado.É uma escrita tão oral...Para mim ele é um mestre da língua portuguesa.

Isso de ser uma leitura obrigatória também é uma falsa questão. O problema não está nas obras mas no facto de os alunos não serem habituados á leitura desde cedo. Como 18 anos creio que um aluno já deve ter competência suficiente para ler o memorial e tirar dele algumas ilações, mas como nunca foram habituados...Se fossem dados outros livros o problema era o mesmo, pois trata-se de uma questão estrutural que começa muito antes.

Há muita gente que assusta com o facto de um autor ser nobel, creio que é mais preconceito do que outra coisa já quanto aos outros dois pontos, pois...É sempre complicado tentar separar a obra do autor. Por exemplo, o Jorge Amado era também comunista e nas suas obras volta e meia as personagens fazem greves e assim...Porque não concordo com a ideologia não vou ler os livros dele?

Olha que eu tenho inveja de muitos escritores. Nunca vou conseguir escrever como eles...Se bem que agora tendo mais a invejar aqueles que publicando lixo, ficam ricos.

cumps

Alu disse...

Sara, totalmente de acordo! ;)

Alexandre Kovacs disse...

Muito bom o título provocador! Grande abraço deste amante de Saramago deste lado do Atlântico.

Alu disse...

Muito obrigada Alexandre! ;)

Joana Martins disse...

A mim, custa um pouco perceber o que José Saramago está a tentar transmitir nos seus livros mas depois de muita leitura consigo entender o que ele quer dizer. É verdade que a pontuação torna mais complicada a leitura mas nada que não consigamos perceber.

SEVE disse...

Mas SARAMAGO é absolutamente genial, é o melhor escritor português depois de Camões. Sobre a pontuação direi em linguagem futebolística que quando não se sabe jogar até a bola atrapalha.

"MEMORIAL DO CONVENTO" um monumento do tamanho do seu homólogo.

"O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS" - talvez o melhor romance de sempre da língua portuguesa!

E o resto são desculpas de mau pagador!

Alu disse...

Obg pelo comentário e pela visita SEVE!

Gosto de Saramago, mas por acaso "O Ano da Morte de Ricardo Reis" não está a ser fácil para mim... Gostei muito de "Todos os nomes" e o "Ensaio Sobre a Cegueira".

O último dele, "Clarabóia", comecei a ler, mas ainda não acabei. Achei que não parecia a escrita de Saramago...