sexta-feira, 13 de novembro de 2020

"Dentro do Segredo" - José Luís Peixoto


Há uns meses atrás, no Podcast de Bernardo Mendonça, "A Beleza das Pequenas Coisas", ouvi a entrevista do escritor José Luís Peixoto. O seu nome não me era de todo desconhecido e não o será, para todos os que acompanham a esfera literária portuguesa (além disso, a cadelinha dele costuma frequentar o meu local de trabalho *FunFact!*). Na altura fiquei fascinada e muito curiosa com as histórias que contou acerca desse mundo secreto que é a Coreia do Norte e de como, já por duas vezes, tinha estado nesse país. 

Este ano, na minha segunda ida à Feira do Livro de Lisboa, desta vez em contexto apocalítico, trouxe um exemplar de "Dentro do Segredo". Mergulhei imediatamente na sua leitura e fiquei realmente surpreendida pela positiva.

Ainda não explorei a narrativa ficcional de José Luís Peixoto, mas "Dentro do Segredo", escrito na primeira pessoa, apresenta uma linguagem sem grandes floreados. A escrita é simples, mas cativante e desde a primeira página fiquei rendida. 

Há alguma coisa nele que me faz lembrar a forma como Murakami escreve, ou talvez fosse a solidão de um homem associada a estar num país ditatorial, como a Coreia do Norte. As personagens principais de Murakami tem também esse sentimento persistente de solidão. Em Dentro do Segredo, tive sempre a sensação de que José Luís Peixoto estava completamente só, num mundo completamente à parte. Porque a Coreia do Norte está realmente, completamente à parte. 

O levantar da cortina, para um povo tão enigmático foi fascinante. Perceber alguns dos costumes, as suas dificuldades e misérias e a forma obsessiva como tudo é político e tudo são regras e protocolos torna-se a certa altura asfixiante. O Líder é Deus. Por mais que tente comparar esta com as outras ditaduras, como a que fez parte da nossa própria história, ou como as ditaduras sul americanas, não encontro pontes. A Coreia do Norte de José Luís Peixoto, assemelha-lhe mais a um universo distópico, incomparável.

Estou habituada a ler histórias sobre personagens  que descortinam as injustiças e crimes e que se insurgem contra ditadores. Estou habituada a estar num dos extremos do segredo. Estar simplesmente Dentro do Segredo, sem fazer juízos ou tomar partidos, é difícil e solitário, mas de certa forma este livro consegue isso.

Quando terminei esta leitura, não pude deixar de me perguntar o que se esconde por detrás do aparente respeito e veneração do povo coreano pelo seu Líder. Onde estão as almas rebeldes? Haveria alguma réstia de espírito rebelde na guia turística, que acompanhava o grupo de turistas desta história? 

Para meu próprio conforto, gosto de acreditar que sim.  



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