sábado, 5 de dezembro de 2015

"AVC do Amor", Luís Abreu

Há uns tempos atrás, mencionei que precisava de ler mais autores portugueses. Tive a sorte de um me bater à porta (ou ao email, como foi o caso). Foi assim que conheci Luís Abreu e a sua estreia no mundo da prosa, com "O AVC do Amor".

Nunca tendo ouvido falar do trabalho do Luís, fiquei de pé atrás. Isso acontece sempre, quando alguém me pede uma opinião, ou uma parceria. Não o faço porque tenho a mania que o meu Blog é melhor, ou porque sou ecléctica naquilo que leio; tenho os meus gostos literários e sair da minha zona de conforto causa-me sempre confusão. Além disso, confesso que tive receio de que "O AVC do Amor" fosse mais um daqueles livros em que o autor nos descreve a sua doença e como é horrível viver com ela.

Depois de ler o livro, sinto-me feliz por não ser nada desse género. Tenho apenas a dizer em minha defesa, que o título engana (apesar de ser um trocadilho engraçado).

Mesmo com a minha ideia erradamente preconcebida, resolvi dizer "sim". Tinha acabado de ler um artigo, que fazia referência ao facto de dizermos tantas vezes "não". Era altura de começar a dizer "sim" mais vezes. Senti que devia deixar de parte os meus receios e desconfortos e dar uma hipótese a pessoas novas e desconhecidas, de entrarem na minha vida e de lhe acrescentarem algo. Que é que eu tinha a perder? Nada! No máximo, ou ficava igual com a experiência, ou ficava melhor. 

Comecei a ler "O AVC do Amor" num dia em que acordei às seis da manhã, e não conseguia voltar a adormecer. Quando dei por ela, eram oito da manhã e eu ainda estava de pijama, com os animais por alimentar e a mochila por preparar. Todo este adiar de um dia de trabalho, porque fiquei imediatamente maravilhada com a forma tão simples e simultaneamente completa, com que o Luís Abreu escreve a história de Rodrigo.

Não se pode dizer que exista um enredo linear. Diria antes que este livro é composto por um emaranhado de recordações, de opiniões (algumas, bastante cómicas) e de algumas divagações sonhadoras, mas sempre com o seu quê de verdade. Gostei da forma como o texto está construído. Com frases curtas e simples, mas perfeitamente claras para quem as lê. 

Identifiquei-me, como se calhar muitos de vocês também se identificariam, com a visão do acto de amar que Rodrigo, personagem que foi vitima de um grave AVC, nos descreve - o louco e irrealista primeiro amor, e o amor estável e "saudável", que vem com a idade. Penso que o Luís conseguiu descrever esses tipos de amor com muita perfeição. 

Tenho apenas a apontar como pequeno defeito o facto de este livro acabar rápido. Queria mais! No último terço da história, parece que tudo se passa "à pressa" e temos um fim demasiado precoce e precipitado. Isso faz com que haja um contraste em termos de ritmo de leitura entre o resto do livro e o final, que pode incomodar o leitor mais sensível. 

Para terminar esta opinião, quero deixar claro que este não é um livro sobre um homem que teve um AVC. Este é um livro sobre um ser humano, que viveu, e vive com as suas limitações, como qualquer outra pessoa; adaptando-se e reaprendendo a viver. E não é isso que todos nós fazemos? Passamos a vida a reaprender. A diferença está não só na rapidez com que o fazemos e no modo como somos obrigados a fazê-lo, mas também no amor que nos rodeia e nos motiva a darmos mais de nós mesmos. 

Sabendo, que também o Luís sofre as sequelas de um grave AVC, no final não pude deixar de me perguntar, quanta desta narrativa correspondia à verdade. Depois deixei-me disso. Não porque perdi a curiosidade, mas antes porque percebi a estupidez da minha dúvida; cada livro tem a sua parte de verdade e ficção e todos resultam das experiências de cada escritor. Nada vem do vazio. Logo, devo encarar cada livro simultaneamente como sendo ficção e realidade. "O AVC do Amor" também me ensinou esta lição.

Obrigada Luís Abreu!

 


6 comentários:

la disse...

obrigado eu. honestamente não tinha noção que o livro poderia ser tão bem recebido

Ana Luisa Alves disse...

:D ás vezes surgem surpresas boas!

Ana Santos disse...

Parabens Luis <3

la disse...

obrigado :) <3

Alexandra Guimarães disse...

Não conheço a obra do autor, mas tenho lido críticas positivas que me despertaram o interesse.

la disse...

boa altura de conheceres :) https://www.chiadoeditora.com/livraria/avc-do-amor