terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Homem de Fato

Estava uma bela manhã de Domingo. Peguei na trela e saí com a R para uma correria no parque. Infelizmente, esqueci-me dos lenços e, como tenho tendência para afogar-me em ranhos, quando vou fazer exercício, achei melhor voltar para trás.

Vinham dois senhores de fatinho a descer a rua e não consegui escapar-me:

- Bom dia, menina! - saudou o mais velho dos dois - Posso deixar-lhe esta revista para dar uma leitura? - perguntou ele.
- Bem, poder pode, mas cá em casa já temos as nossas próprias crenças - respondi eu de forma descomprometida.
- Sim menina, mas sabe quem escreveu estas sábias palavras? Foi um grande Homem! Moisés! - Exclamou ele, enquanto me estendia a revista.
- Sim, deve ser, mas eu não acredito em Deus. Eu sou budista.

Os senhores olharam para mim como se eu fosse o Diabo em pessoa e perguntaram-me como acreditava que a minha bela cadela R tinha sido obra do acaso e não de um criador omnipresente? Não me considero mesmo budista. Não realizo qualquer tipo de ritual budista, desconheço a maior parte da mitologia budista, mas gosto da filosofia de vida "Faz o bem e recebe o bem; Sê má e pagas por isso mais cedo, ou mais tarde, de uma forma, ou de outra.". Por outras palavras, acredito no conceito de karma e acredito na mutabilidade de tudo; nada dura para sempre, está tudo em constante mudança. Por isso ultimamente, tenho tentado aplicar alguns simples princípios do budismo no meu dia-a-dia e sinto-me mais feliz. 

Os senhores continuaram o seu diálogo:

- Mas sabe porque estamos aqui? - perguntou o mais novo.
- Hmm...para viver? - disse eu, não entendendo bem onde ele queria chegar.
- Não! Aqui! Sabe porque estamos aqui hoje? Para lhe trazer a palavra de Jeová. O único e verdadeiro Deus, que nos salvará do fim do mundo. O fim está próximo e só os bons, aqueles que crêem em Jeová, permanecerão na Terra. Será o Paraíso na Terra, livre de todo o mal. - argumentou ele.
- Pois. O mundo também ia acabar em 2012 e ainda aqui estamos. Além disso, quando acabar mesmo, eu já não vou cá estar, nem o senhor. Eu fico feliz que os senhores acreditem no vosso Deus. O ser humano precisa muitas vezes de acreditar em alguma coisa. Pode ser em Deus, Jeová, Alá, ou outro qualquer. Os princípios da religião são todos os mesmos; praticar o bem, mostrar compaixão, etc etc. Se toda a gente parasse de tentar impingir a sua religião aos outros não se travariam tantas guerras e o mundo seria mais calmo.- respondi eu.
- Sim menina, mas deixe-me só ler-lhe este pequeno maravilhoso e belo texto - o homenzinho sacou da Bíblia da sua pastinha de couro e disse - Ismael blá blá blá - tentei prestar atenção - Então? Não achou maravilhosa a palavra de Jeová? - perguntou ele.
- Hmmm...desculpe, mas não senti nenhum click cá dentro - disse eu começando a afastar-me.
- Menina, tenha um bom dia. - disseram eles.

Eles não entenderam nada do que eu disse. Pois não?

3 comentários:

MERCEDES disse...

Es ético imponer nuestras creencias a los demás?La imposición en sí no es acaso amoral?.
En fin como dice el refranero:
No hay más sordo que el que no quiere oír.
Y encima te agobian hasta el domingo cos historias trascendentales, uffff

João Carlos Reis disse...

Prezada Ana,
eu não sou Testemunha de Jeová, mas sou um humilde cristão.
Pelo exemplo inicial que deu nesta sua conversa (mentir), demonstrou um dos motivos que infelizmente governa o mundo e faz despoletar as guerras: a mentira.
Efectivamente não são as "religiões" que despoletam as guerras, mas, entre outros motivos, a mentira, a ganância e o "humanismo". É por essas e outras que o mundo não é mais calmo.
Os princípios também não são exactamente os mesmos para todas as "religiões".
Também, no caso dos cristãos, não tentamos impingir a "nossa" "religião" aos outros, mas simplesmente, com todo o Amor e Carinho, cumprir das últimas palavras de Jesus Cristo: "Portanto, ide e ensinai todas as nações". Logo, se nós cumprimos isto, o principal "culpado" é Ele... de querer que nós demonstremos pelos e aos outros o mesmo Amor que Ele demonstrou por nós.
Para finalizar, e como escreveu a D. Mercedes antes de mim, "Não há mais surdo do que aquele(a) que não quer ouvir"... o que a sra. deixou bem patente no seu pré-concebido e formatado comentário final do seu artigo...

Ana Luisa Alves disse...

Caro João Reis, como disse no inicio do texto: já tenho a minha própria crença e sou feliz com ela. Se calhar vocês deviam ser mais explícitos na vossa missão em vez de acharem que podem convencer as pessoas lendo textos de um livro que não é a verdade absoluta para toda a nação. E se não é a verdade absoluta para toda a nação então eu acho que aqui o surdo e intolerante não sou eu...pelo contrário, é aquele que acha que o seu modo de pensar é o mais correcto, ou o melhor, coisa que está claramente associada ao fanatismo religioso. Eu não sou contra as religiões. Sou contra os exageros.

Cumprimentos e toda a sorte na sua vida!