sábado, 7 de novembro de 2020

Goodbye Facebook

Num dos raros momentos em que ligo o PC, o impulso já não é o mesmo. Já não primo imediatamente o botão do Facebook, como se na verdade essa fosse a minha página inicial principal. Quando acordo de manhã, já não pego no telemóvel para ver o Facebook, o Instagram, o Gmail e novamente o mesmo loop. 

Fazer delete no Facebook era algo que ambicionava há muitos meses (ou anos!?), mas sucessivamente ia inventando desculpas, que achava plausíveis: a página do Baú dos Livros; a página do negócio dos meus pais; o grupo dos veterinários; os meus amigos e familiares...mas a verdade é que eram apenas desculpas para justificar um vício. 

O Facebook esteve na minha vida desde 2010. Estive lá, quando toda a gente estava obcecada com o "FarmVille", depois vieram as selfies, as conversas com os amigos nos comentários das fotos de perfil, as sucessivas modas e reviravoltas, a obcessão pelos "gosto" e pelas partilhas...Foi divertido durante uns tempos. A nível social era uma ferramenta interessante; era possível, por exemplo, descobrir traições e cusquices meramente pela observação do padrão de ação das pessoas nas redes sociais (e ainda é...). No entanto, para mim o tempo do Facebook acabou. 

O WhatsUp veio permitir a interação com amigos e familiares à distância e com uma maior privacidade. Além disso, neste momento o ambiente no Facebook está tão tóxico e insustentável, que sempre que lá ia ficava a sentir-me zangada ou incomodada com a idiotice de muita gente. Entretanto, parece que passados 10 anos, o pessoal das gerações mais velhas descobriu a plataforma e comportou-se como se pudesse dizer e fazer aquilo que nunca pôde na vida real - publicar imagens completamente impróprias (será que sabem que aquilo está público?), ser mal educados e partilham pormenores que ninguém quer saber, ser intolerantes e donos de todo o saber. Esse tipo de comportamento minou completamente o Facebook e já não é característico só dessas gerações. Está disseminado um pouco por todo o lado. 

Em adição ao que eu acho sobre a plataforma, vi há umas semanas o documentário/drama chamado " O Dilema das Redes Sociais". Recomendo que vejam. Foi sem dúvida um empurrão para a decisão de diminuir a minha presença online:



Neste momento ainda não consegui deixar o ciclo vicioso de pegar no telemóvel de manhã e alternar entre os sites dos jornais, o Gmail e a plataforma de Podcasts, mas estou a tentar. Para já, consegui a pequena vitória de passar menos tempo no telemóvel. Ganhei tempo para fazer coisas que realmente são produtivas, como ler mais, aprender mais com os Podcasts que ouço, estar mais com as pessoas e deixar o que não é importante e os dramas dos outros de fora.

domingo, 1 de novembro de 2020

O Estado das Coisas - uma carta aberta ao Estado português.

Exmos Srs e Sras,

Desde Março deste ano que o mantra na comunicação social e do vosso discurso se repete - a pandemia é grave e é perigosa; protejam-se! Este mantra vende bem durante uns tempos e serve para esconder e justificar muitas ações, mas depois de 6 meses, sem resultados positivos, precisa de uma reformulação. 

Ninguém se consegue proteger de uma pandemia apenas com máscara, gelinho e bom senso, se o Estado/vocês não tomarem medidas à séria. Não falo de medidas como as atuais - fechar concelhos, limitar o número de pessoas na rua e em casa, limitar os horários dos estabelecimentos, etc etc. Essas medidas apenas vão adensar o problema social que se está a descontrolar - o desemprego vai aumentar (mais), os donos dos estabelecimentos vão-se endividar (mais) e toda a gente vai ficar mais pobre, mais sozinha e mais infeliz. Além disso, todos sabemos que os portugueses são peritos em contornar regras, pelo que os nossos agentes da autoridade vão ter de se esforçar mesmo muito, ou começar a assobiar para o lado, como aconteceu na observação das ondas na Nazaré.

A vida tem de continuar e o medo não pode ser a base de uma sociedade. É aqui que deveria entrar a vossa ação em conjunto com a dos media - todos os dias os portugueses deveriam ser informados de como o sistema nacional de saúde (SNS) está a ser reorganizado e reforçado e de como isso é a prioridade. Devíamos ser informados do que está a ser feito para diminuir a densidade populacional dos transportes públicos e quais as estratégias para combater o crescente desemprego. Nenhum português deveria precisar de se preocupar com a negligência face ao controlo das suas patologias crónicas, do comprometimento dos atos de medicina preventiva, ou do adiamento de procedimentos cirúrgicos, pelos quais esperaram meses.  Nenhum português deveria ter de se preocupar com o que fazer, caso o infantário, ou a escola dos seus filhos encerre e deixe de haver quem fique com eles.

Mas os Exmos senhores não falam de soluções concretas. Falam do vírus e falam com medo. Seguem os passos do resto da União Europeia, que se recusa a ter a coragem necessária para fazer reformas sociais JÁ! Tudo é lento, burocrático e pandémico. 

Infelizmente a história é cíclica. No final de tudo isto, quando perderem as próximas eleições legislativas, e os partidos populistas e extremistas ganharem uma maior representatividade no parlamento, espero que saibam que foi por culpa da vossa inércia e cobardia para seguir um caminho diferente dos restantes países do mundo Ocidental. 


Atenciosamente,

Luisa Alves

terça-feira, 1 de setembro de 2020

"Becoming - A Minha História" - Michelle Obama

Este ano tem sido dedicado à leitura de obras de não ficção. Não tem sido de propósito, apenas acontece que são esses os livros que me tem vindo parar às mãos. No entanto e, apesar da quarentena, não tenho lido muito. Como já referi anteriormente, não tive uma quarentena típica, com muito tempo livre (e ainda bem...). 

Apesar de ser apenas por acaso, a curiosidade para ler a autobiografia da Michelle Obama existia. O contexto político que caracteriza a actual América é no mínimo estranho e no máximo inacreditável. Tinha curiosidade em saber como é que se passava dos Obama para os Trump. O que correu mal?

Claro que a leitura de Becoming não me ajudou a compreender os acontecimentos que aqui conduziram. Para isso era preciso um conhecimento bem mais profundo do mundo americano, da sua história (curta, mas rica) e dos meandros do mundo da política. Isso está longe de me assistir. 

Acabei por ler esta autobiografia não para compreender, mas para desfrutar. Optei por ler a versão inglesa original, que está bem escrita, é simples e cativante. 

É na primeira pessoa que ficamos a conhecer o contexto em que a 44ª primeira-dama americana cresce, os obstáculos que a sua geração enfrenta e as pessoas que a marcam. Só a meio do livro é que o nome Obama surge pela primeira vez, como o homem charmoso, que chega para ser o estagiário de Michelle, numa conceituada firma de advogados....marota! 

Mas desenganem-se. Este não é de todo um livro sobre Barack Obama. É um livro sobre uma grande mulher, com uma identidade muito única, forte e simultaneamente frágil. Uma mulher que como todas nós, vive confrontada com escolhas difíceis e contraditórias, que muitas vezes ameaçam a sua verdadeira identidade.

Este livro deu-me uma perspectiva interessante não só acerca dos bastidores da casa branca e da política americana, mas também da sociedade americana e dos preconceitos que a minam. Talvez sejam esses mesmos preconceitos que nos conduziram até ao dia de hoje. Baseado no que li neste testemunho, acredito que os Obama tenham realmente tentado. As pessoas são simplesmente impacientes e os interesses dos mais ricos são difíceis de ultrapassar. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O "Efeito Pandemia" na Veterinária

Nunca na história da humanidade existiu um momento em que o mundo inteiro falou de um só assunto - da Pandemia COVID-19. Os seres humanos uniram-se contra a falta de descriminação da doença. Ela mata ricos e pobres; brancos e pretos; velhos e novos. Não escolhe quem infecta. O medo falou alto e toda a gente se fechou em casa. As ruas ficaram desertas. As clínicas veterinárias encheram. 

Durante estes últimos tempos mantive-me em silêncio, não porque não tivesse o que dizer (toda a gente adora opinar), mas porque o "efeito pandemia" assolou de forma drástica o meu dia-à-dia e o de muitos colegas veterinários e profissionais da área.


Os últimos quatro meses foram literalmente o sonho e o pesadelo de todos os veterinários - de repente os animais estavam todos a precisar de assistência médica. Alguns já estavam doentes há meses, em sofrimentos ignorado pelos seus "cuidadosos" donos; outros precisavam apenas de uma desculpa para sair de casa, como cortar unhas curtas, ou colocar a vacina da Raiva em dia, quando o prazo já tinha caducado há mais de 5 anos atrás. Tudo era urgente e nada podia esperar para depois da quarentena.

Foi preciso controlar as pessoas. A Ordem dos Médicos Veterinários de Portugal implementou algumas directrizes, começando, por exemplo, por desautorizar o atendimento de cuidados de saúde não urgentes. Todos passamos a trabalhar por marcação e os donos começaram a ficar à porta da clínica. A nossa indumentária mudou. Parecíamos uns astronautas e as nossas mãos secaram de tanto pó talco de luva e álcool. As equipas foram divididas e isoladas e as clínicas que não tinham pessoal suficiente tiveram de reduzir o seu horário, ou mesmo de fechar; os veterinários que trabalhavam em serviço domiciliário viram os seus serviços suspensos, ou criticados pelos colegas.

As dúvidas surgiram - o que era urgente e o que não era? Um corte de unhas podia ser considerado urgente, se na sua ausência as unhas revirassem e magoassem a pele do animal; uma vacina era essencial, se implicasse a protecção do animal e do seu dono, principalmente no caso das doenças transmissíveis aos humanos. O conceito de urgência era variável de clínica, para clínica. Surgiram acusações e guerras entre colegas veterinários. Nem dentro da nossa classe a solidariedade humana prevaleceu. Os tutores migraram para outras clínicas, mediante a disponibilidade das mesmas (ou não) para atenderem os seus caprichos. A Ordem remeteu para a direcção clínica de cada espaço a decisão de continuar a vacinar. Houve quem temesse a ocorrência de surtos de Parvovirose, Esgana, ou Leptospirose. Para muitos da nossa comunidade não fazia sentido suspender cuidados de profilaxia por tempo indeterminado. 

Lentamente e com grande poder de adaptação, os veterinários por todo o mundo, foram-se moldando às novas regras. As consultas demoravam o dobro do tempo, porque não havia um tutor para ajudar a segurar do patudo em cima da mesa, ou para o acalmar. Os telefones não paravam de tocar, a uma velocidade que, com a diminuição das equipas, era impossível de dar resposta. Foram-se adaptando também ao grau de maluquice dos tutores, que dadas as circunstâncias sociais (penso eu), muitas vezes demonstravam falta de paciência, compreensão, bom senso, ou mesmo educação.  

Era tão bom que a Pandemia realmente aproximasse os seres humanos e os tornasse solidários, mas cedo se percebeu que isso era uma ideia inocente e cor de rosa, que os media queriam que comêssemos. No geral, os seres humanos continuaram e pioraram os seus comportamentos habituais de egoísmo.

Quando a quarentena terminou e as restrições começaram a ser aliviadas, recebemos a segunda vaga de loucura - a taxa de adopções/compra de animais disparou durante o confinamento e todos os bebés apareceram para iniciar as vacinações. Quem não ama bebés? Também nesta fase, todos os cuidados de saúde pendentes, como castrações, vacinações não prioritárias, desparasitações, etc etc, começaram a ser colocadas em dia. A loucura de trabalho continuou. 

Estamos em Portugal, em Agosto de 2020, e as coisas começaram a acalmar. Depois de semanas a sair 30 a 45 minutos depois da minha hora, estou finalmente a conseguir processar a loucura destes tempos. Admiro-me como nunca tive medo da doença e começo a achar que foi simplesmente porque não havia tempo para ter medo. Os meus colegas e os animais precisavam de mim.

Esta não é uma publicação de lamento; pelo contrário. É a prova concreta de que, apesar de muitos momentos de dúvida, que acredito que muitos colegas veterinários sintam ao longo da sua carreira, a nossa profissão é das mais maravilhosas e gratificantes do mundo. Em momentos atípicos da história da humanidade, em que muita coisa pára, as nossas ferramentas intelectuais e práticas, permitem-nos continuar a oferecer uma ajuda valiosa às pessoas e à sociedade. Mesmo que estas não reconheçam o nosso valor, no final do dia o nosso foco deverá ser sempre o bem estar dos animais que assistimos e a nossa consciência deverá sentir-se tranquila.  



 



sexta-feira, 24 de abril de 2020

Cancro em animais de companhia - Existe!

Cancro é uma palavra com uma conotação negativa, pelas razões óbvias. Muitos de nós já tivemos um familiar, um amigo, ou um conhecido que teve de enfrentar a doença, com tratamentos drásticos e dolorosos, com desfechos por vezes vezes trágicos. 

Em medicina veterinária a palavra cancro, ou doença neoplásica (termo científico), também faz parte do nosso dia-à-dia. Muitas vezes, à semelhança do que acontece com os humanos, quando é encontrado num estadio precoce, conseguimos actuar e trazer ao animal um estado de remissão que se pode prolongar por anos. 

O que infelizmente está contra nós, é o facto da medicina preventiva ainda não ser uma realidade para todos os animais de companhia e para todos as suas famílias. A maior parte dos nossos animais geriátricos vai ao veterinário com a mesma frequência com que ia, quando era cachorro: uma vez por ano para apanhar a vacina anual. Ás vezes simplesmente não há dinheiro para mais e daí ser importante ponderar sempre a adição de um companheiro de quatro patas à nossa família. 


O que ainda acontece actualmente em Portugal, e em muitos outros países, é que quando a doença é encontrada, já é tarde. 

No entanto, quando uma doença neoplásica é encontrada num estadio precoce, e chega a hora de falar das opções terapêuticas com os tutores, o que acontece é que à mera referência à palavra "quimioterapia", existe uma retracção imediata. Os tutores ficam claramente assustados e muitos ainda optam por não avançar com essa opção terapêutica, por medo do sofrimento a que podem submeter o seu companheiro canino, ou felino. Imaginam que o animal se vai sentir terrivelmente mal, vai ficar sem pêlo, nauseado e sem forças. Algumas pessoas revivem experiências pessoais traumatizantes, como ver um ente querido a passar por toda a adversidade da doença neoplásica. 

No entanto, na maior parte dos casos, a quimioterapia não tem esses efeitos secundários nos nossos animais e pode realmente ser a diferença entre salvar, ou não o nosso querido amigo. A parte mais difícil é realmente ter toda a família a bordo, com uma decisão informada e consciente e, acima de tudo, com expectativas realistas. 

Esta é uma realidade que a Dr.Sue Ettinger tenta explicar aos donos, desmistificando a doença e tentando trazer algum optimismo a uma palavra tão cheia de negatividade - Cancro. A Dr.Sue, também conhecida como The Cancer Vet, tem um canal de Youtube, que descobri há poucas semanas, que realmente é muito útil e informativo para todos os tutores que tem animais e querem simplesmente aprender mais, ou que estão a passar por situação de diagnóstico de uma patologia neoplásica. O canal tem informação actualizada e baseada em bibliografia de confiança, o que é outro ponto a favor 

Deixo aqui um video de uma sessão de quimioterapia em cães, para que seja desmistificada a ideia de que é algo extremamente traumático e doloroso, ou inclusive o mito de que é algo que não existe em medicina veterinária:


sábado, 11 de abril de 2020

Cadernos de Lanzarote vol. I e vol. II - José Saramago

Uau! Um post sobre livros, num blog de livros, onde ultimamente se tem falado de tudo
menos de livros... Finalmente, dizem vocês. 

Sim - finalmente! - é também a palavra que escolho para iniciar este post. Venho arrastando (isto soa muito português do Brasil...) a leitura dos Cadernos de Lanzarote há meses. Mais precisamente, desde Março de 2019. 

Antes de expressar a minha opinião sobre os livros, é importante dizer que Saramago é um dos meus escritores preferidos. Em 2018 visitei A Casa, em Lanzarote, e foi um momento de emoção. Nessa visita comprei dois livros do autor - A Jangada de Pedra e o primeiro volume do Cadernos de Lanzarote. Tinham como bónus o carimbo oficial d' A Casa de Saramago, por terem sido comprados lá. Achei que seriam uma recordação duradoura. 


Embora A Jangada de Pedra ainda esteja por ler, em Março de 2019, decidi começar a explorar os Cadernos. Estes não são mais do que uma espécie de diário, ou se preferirem algo menos narcisista (palavras de Saramago, não minhas), um conjunto de crónicas do dia-à-dia do escritor, compiladas em 5 volumes que compreendem os anos de 1993-1998.

Nestes cadernos podemos encontrar de tudo um pouco. Desde breves descrições da vida familiar de Saramago, até críticas literárias, ou algumas passagens de cartas enviadas ao autor. Há também uma série de comentários, ou reparos, mais ao menos sarcásticos em relação a personagens com as quais Saramago não alinhava o seu chackra. Esses comentários conseguiram arrancar-me um, ou outro sorriso, mas possivelmente só funciona, se vocês forem de esquerda, ou não gostarem de "múmias"

Apesar da evolução lenta da leitura, foram dois livros de que gostei. Não pude deixar de reparar que apesar de uma origem humilde, o escritor cultivou gostos bastante eclécticos, como é o caso da ópera, referência frequente nestes cadernos. 

As passagens de que mais gostei, para além das críticas mordazes ao modo que Portugal estava a ser comandado, referem-se às coisas simples da vida. A chegada de Pepe, o cão de Saramago e Pilar, as visitas e passeios que faziam com os amigos, etc. 

Para quem gosta de Saramago, os Cadernos são uma estreita, ainda que fascinante janela, para a sua mente. Recomendo para qualquer fã, ou mesmo para aqueles que simplesmente querem compreender melhor o homem.