Não me incomoda não ler tanto. Continuo a amar o cheirinho do papel novo (ou velho) nas livrarias e alfarrabistas. Tenho sempre um livro na carteira...se por alguma razão me esqueço de levar um livro, apanho uma seca descomunal. É a maldição do livro ausente.
Hoje tivemos um gato na clínica chamado "Lev". Os donos devem ser de esquerda, ou devem ter influências russas. A alternativa é que sejam fãs da dieta Lev...mas não me pareceu. A verdade é que enquanto limpávamos as feridas do animal, deu-me uma vontade louca de mandar tudo ás urtigas e ir ler Tolstoi, num confortável sofá de couro. Eu dava uma óptima milionária.
Porquê que não tenho lido? A verdade é que tenho andado a passear para cacete e supostamente tenho um trabalho da pós-graduação para escrever e entregar até dia 30 de Junho (POR ISSO É QUE ESTOU AQUI A DIVAGAR...)!
Actualmente levo uma vida de instagrammer/influencer, mas com a desvantagem de que eu é que pago (carreguem por aí nas publicidades da google adds, a ver se fico rica à vossa custa, por favor #lifegoal). Os meus pais patrocinam-me a comida e a roupa lavada.
Tem sido um ano muito bom. Mas não tenho lido. Gostava de ler mais.
Hoje dei por mim nos caminhos da nostalgia musical. Comecei a ouvir o álbum Harmonium da Vanessa Carlton, coisa que fazia com bastante frequência aos 17 anos. Há mais de 10 anos atrás. Ainda sei as letras de cabeça. E aparentemente ainda escrevo, da mesma forma que falo. Erro grave, segundo o meu segundo ex-namorado.
Há lições que realmente ficam. Há outras que se esquecem.
Voltando à música...e aos 30...as músicas deste segundo álbum da Vanessa despertavam em mim a sensação de que tudo era possível. Dava por mim a pensar nas mil aventuras, que a vida me podia reservar. Agora pareço uma velha conformada a falar, mas a verdade é que a sensação que a música me desperta ainda é a mesma. Isto faz-me pensar: será que mudei assim tanto?
Tenho quase 30, mas continuo sem saber nada sobre a vida...ou quase nada. Aprendi que há peças de roupa que não se podem lavar a quente e que a ansiedade é uma coisa real e que se misturarmos Xanax com alcool podemos ter uma trip muito marada (essa coisa só li...não experimentei...eu não faço essas coisas).
A crise dos 30 será perceber que nunca se vai perceber nada? Será perceber que se tem de saber lidar o melhor possível com o facto de a vida ser um aglomerado muito confuso de eventos mais ao menos aleatórios, que ninguém consegue prever?
Este é aquele post com 2 meses de atraso, que devia ter sido escrito e publicado se eu fosse uma blogger decente. Infelizmente não sou.
Por isso, passando à frente todos os típicos votos de "feliz ano novo e boa sorte com as dietas e outros objectivos temporários", mea culpa, mea culpa, por não vir aqui tantas vezes como gostaria...anuncio que pretendo retomar o registo das minhas aventuras literárias e não só.
Nos últimos 2 meses estive a fazer algumas mudanças na minha vida, que não me deixaram muito tempo para leituras. Vejam lá que ainda nem estipulei o meu objectivo de número de livros a ler no Goodreads!?! #escandaloso!
Este é apenas um post para dizer que estou viva e isto não morreu. Continuarei a depositar neste baú parte das minhas memórias e ideias estranhas.
"(500) Days of Summer" é considerada uma comédia a fugir para o drama, que conta a história de Tom e Summer, um casal com muitos gostos em comum, mas com expectativas completamente diferentes em relação ao relacionamento que começam. Summer, é uma rapariga um pouco perdida, talvez desiludida com um antigo amor, que sabe que não pode oferecer nada de sério; Tom é o oposto: um rapaz sonhador, que acredita no destino, nas almas gémeas e no amor para a vida toda.
Obviamente (spoiler alert), duas pessoas com objectivos tão diferentes, acabam por não ficar juntas. E é aí que começa o sofrimento de Tom. A certa altura na relação percebemos que este já só vivia de expectativas, que saem sempre frustradas e que aumentam a infelicidade de Summer. Tom assume o papel que realmente tem nesta história, o de vilão. Ignora propositadamente os pequenos sinais de distanciamento de Summer até que esta se decide pela ruptura. O amor é egoísta, mas será que isso era realmente amor, ou apenas uma ideia de amor?
E é por isso que este filme mexe comigo (e com muita gente). Eu sou o Tom. A minha cabeça está cheia de histórias e cenários que imagino para mim e para aqueles que me são próximos. Fico sem saber o que fazer, quando as coisas não acontecem como nos filmes e livros bonitos. Esses filmes e livros, que sempre me ofereceram a segurança de que algo sempre corre bem no final.
O que é que eu faço? Que instruções devo seguir? Que escolhas devo fazer? Há realmente algum livro que nos valha?
Paro no tempo.
Perco-me no tempo e concluo que o livro somos nós e que o melhor é mesmo não criar expectativas, ou corremos o risco de ser o vilão da nossa própria história.
No ano em que Saramago partiu deste mundo, visitei Lanzarote pela primeira vez. Aquela paisagem negra imponente ficou-me na memória apesar de apenas lá ter estado durante umas horas. Oito anos depois, no ano em que se celebram 20 anos da atribuição do nobel da literatura, voltei. Desta vez ia com a liberdade da vida adulta e pude visitar "A Casa".
Fomos numa manhã cinzenta de terça-feira. Estava curiosa, mas sem qualquer tipo de expectativa. Sempre gostei de Saramago, mas não estava preparada para esta visita. Já li várias obras do escritor e ainda hoje é uma constante nas minhas leituras. No entanto, não esperava emocionar-me, como aconteceu durante esta experiência.
A visita tem duas partes diferentes: A Casa e a Biblioteca. Somos convidados pela simpática guia a entrar no hall de entrada de um homem e de uma mulher que partilham, entre outras coisas, uma paixão pelos livros e pela arte, que são evidentes em todos os compartimentos da casa. Sente-se uma atmosfera tão intima, que chegamos a achar-nos intrusos. Aprendi algumas coisas que não sabia sobre Saramago; ouvi a história do seu avô que se despediu das árvores antes de ir uma última vez para o hospital e que despoletou uma série de emoções em mim que não pude controlar; observei o cadeirão onde o escritor se sentou a escrever e onde todos os dias o seu cachorro lhe fazia companhia...Não ouvi tudo o que a guia dizia, porque estava demasiado atrapalhada a tentar esconder as lágrimas. Foi difícil, considerando que só estava eu, o meu namorado e a guia. Escusado será dizer, que não escondi nada.
No final de tudo, fomos conduzidos à cozinha de Saramago e Pilar, onde nos ofereceram um expresso. Não gosto de café, mas estava tão constrangida por me ter emocionado que acabei por beber, com vergonha de recusar. Foi uma oportunidade para me recompor de uma viagem pelas memórias de alguém que teria vivido mais se pudesse. É triste a falta de tempo que sempre há para se viver.
Durante o resto do nosso tempo em Lanzarote a sensação de calma com que saí da visita "À Casa" nunca me abandonou. Como um tímido fantasma nostálgico que assombra o espírito, relembrou-me todos os dias de que cada momento é precioso, quer se seja um nobel da literatura, ou um simples mortal, ou os dois - um nobel da literatura e um simples mortal.
Fiquei muito feliz por ter tido a oportunidade de visitar a casa de Saramago, ainda que saia de lá com um sentimento de perda, porque a vida não dura para sempre. Até mesmo a de um nobel.
Sinto falta de alguém que partilhe o meu gosto pela leitura, quando acabo de ler algo como "A Casa dos Espíritos" da escritora chilena Isabel Allende. Quero gritar aos sete ventos que foi dos melhores livros que já li. Ri-me, zanguei-me e chorei e mais uma vez deixei-me encantar pela escrita sul americana. Que universo único é este?! Por alguma razão, a maior parte dos meus amigos não lê muito. É estranho e fascinante, porque agora que penso nisso, as minhas amizades funcionam bem, porque toda a gente tem interesses diferentes. Interesses diferentes tornam a vida mais interessante, mas ao mesmo tempo pode ser um pouco solitário. "A Casa dos Espíritos" segue a história da família Trueba, liderada por um homem pouco tolerante (e isso é dizer o mínimo), Esteban Trueba. Narra a vida deste homem colérico, da sua peculiar e sensível mulher, Clara, e dos seus filhos e netos. Se me perguntarem sobre o que é este livro, não vou conseguir dizê-lo de forma exacta: Este livro é sobre a vida. Simultaneamente fala sobre a história do Chile; o conservadorismo do governo, a ditadura, a tortura e morte de milhares de pessoas à garra desse regime. Fala também das mulheres. Apesar do domínio aparente do homem, é a nossa sensibilidade que comanda o mundo.
Apesar de não ser o mesmo que "Cem Anos de Solidão", do extraordinário Gabriel Garcia Marquez, "A Casa dos Espíritos" tem muitos pontos em comum e a temática família e antepassados ocupa também um lugar de destaque na escrita de Isabel. Acho que é esta temática que de facto me fascina na escrita destes autores sul americanos; a insignificância e ao mesmo tempo significância de cada vida, a repetição dos acontecimentos e actos e a forma como o que fazemos já foi feito mil e uma vezes, mas para cada um de nós é único e irremediável - o ciclo sem fim (já faltava a referência a filmes da Disney!). Gostava de ter mais palavras e maior talento para exprimir ao certo o quanto o meu coração ficou cheio depois de terminar este livro. Três semanas depois aqui estou eu, só e abandonada, sem ainda ter encontrado um bom substituto. PS - Aceitam-se sugestões!