Amelie era a cadelinha de estimação da actriz portuguesa Maria João Bastos. Há coisa de dois anos, foi submetida a uma anestesia geral, para fazer uma limpeza dentária, tecnicamente chamada de destartarização, num hospital no sul do país. Após a alta, algo não correu bem e a cadelinha deu entrada de urgência, acabando por falecer. Esta é a versão resumida, sem especulação, sem detalhes e sem juízos de valor.
O que se seguiu poderia ter ajudado a trazer alguma conclusão acerca da causa de morte da cadelinha, mas tal não aconteceu, uma vez que a actriz, no meio da sua dor e perda, optou por vir para o Facebook "gritar" a sua revolta, para com o hospital e a médica veterinária que acompanhou a cadelinha.
Os comentários a esta publicação, foram vergonhosos, com insultos do pior à médica, ameaças de morte, críticas e mais insultos a toda a minha classe profissional. Isto resultou num processo de difamação contra a actriz, cujo veredicto foi publicado estes dias, sendo a actriz ilibada e optando, dois anos depois de iniciado o processo crime, por repetir as acusações.
Se eu não fosse veterinária, se calhar até acharia aceitável a atitude da senhora e isto fez-me pensar que realmente não devemos levar uma rede social tão pouco a sério, em nenhuma área profissional. Devemos ter cuidado com o que optamos por publicar, e essa responsabilidade é ainda maior, quando somos uma "figura pública".
Neste caso, ninguém, a não ser as pessoas envolvidas de forma directa, esteve lá para saber o que realmente se passou no pós-cirúrgico deste animal. Até pode ter sido erro da médica, ou se calhar até foi a dona que não vigiou o animal como devia, ou deu-lhe comida muito cedo. Não sabemos! No entanto, errar é humano, mas não é humano linxar em praça pública percursos profissionais que exigiram anos e anos de sacrifício. As responsabilidades devem ser sempre apuradas e procuradas, usando os meios adequados.
O que também me deixou desapontada foi a forma espantosa, como num momento somos os melhores profissionais do mundo e, ao mínimo deslize, como se erros de matemática a medicina veterinária se tratasse, passamos a ser os piores. Há bons e maus profissionais em todo o lado e eu não conheço o trabalho desta médica, mas sei que é humana e espero nunca ter de passar por semelhante situação. Ninguém erra porque sim. A perda de uma vida não é só traumática para os donos é, e ainda mais se acharmos que a culpa poderá ter sido nossa, para os profissionais que os tratam.
Infelizmente a medicina veterinária não é matemática e os veterinários não são robots. É triste sentir que realmente os anos que passamos a estudar e o tempo que investimos nesta profissão, e as horas que passamos longe de quem gostamos, são cada vez menos valorizados pelos portugueses. Acredito que isto seja válido noutras profissões também. O atendimento e interacção com o público nem sempre é fácil, mas há limites. Dá mesmo vontade de pegar nas malas e ir para fora, para países onde somos tratados com respeito e carinho.
Toda esta história se tornou num circo de acusações onde o importante ficou por esclarecer: afinal qual foi a causa de morte da Amelie? Tudo se perdeu; a cadelinha, a dignidade de todos os envolvidos e acima de tudo, a verdade.




