Hoje escrevo isto de cabeça quente. Dizem que escrever diários faz bem à alma. É isso que estou a tentar fazer, para quem não percebeu ainda a razão destes posts queixosos.
O-D-E-I-O pessoas. Gosto de algumas, mas odeio aquelas que acham que o mundo gira todo à volta delas e que se lixem os restantes mortais e as suas vidas, para além do emprego. Estou a falar em particular daquelas pessoas que se recusam a fazer marcação no veterinário (ou outro sitio), porque nunca tiveram de fazer e sempre foram atendidas; as pessoas que fazem marcação, mas não aparecem nem avisam e não atendem o telefone, ou então aparecem 2 horas depois; as pessoas que vem 5 minutos antes do fecho com um cão/gato que está doente há uma semana; as pessoas que ligam para o número de urgência, porque querem que vá, fora de horas vender-lhes coisas, ou entregar animais que ficaram de ir buscar a uma determinada hora e não apareceram.
Se fazem parte deste grupo - odeio-vos. Porque me tiram do sério pela falta de consideração que tem por quem está a tentar trabalhar de forma organizada e eficiente.
Trabalhar numa clínica veterinária em Portugal não é fácil por várias razões, mas a principal é talvez a falta de pessoal. Normalmente uma clínica tem duas pessoas a trabalhar - auxiliar/enfermeira e o médico veterinário. Em algumas clínicas, com sorte, há três pessoas. Por isso, quando alguém marca uma cirurgia, ou uma tosquia e banho tem de perceber que está a ser reservada uma manhã, ou uma grande parte da tarde para aquele serviço. Todas as outras coisas passam (quando estamos a falar de cirurgias) para segundo plano e nada é marcado naquele horário. Imaginem o que é recusar outras marcações e depois, sem aviso prévio a pessoa e o respectivo animal, não aparecerem, ou chegarem 2 horas mais tarde.
Trabalhar numa clínica veterinária não é só beijinhos e miminhos aos animais. É raro o dia em que temos tempo para socializar com eles. Não é tão fofo, como as pessoas acham. Trabalhar numa clínica veterinária implica tratar animais realmente doentes, que precisam de atenção constante; é limpar muita merda, chichi e vómito; é gerir toda uma série de stock médico; é organizar o tempo; é fazer chamadas a toda a hora; é estudar e desvendar casos complicados de vida, ou morte; é aguentar as lágrimas nos momentos mais difíceis; é mesmo com isto tudo a acontecer ao mesmo tempo, ter de mostrar cara feliz à próxima pessoa.
Como é que as coisas poderiam melhorar? Se as pessoas pudessem delegar trabalho seria maravilhoso. Nunca me importei de ajudar a limpar, ou de ajudar nas tosquias, ou de telefonar aos clientes. Abomino pessoas que se servem do estatuto de médico veterinário, para nunca limparem seja o que for. No entanto, começo a perceber o porquê de existirem cargos diferentes. Na Escócia, por exemplo, a equipa da clínica tinha pelo menos 5 pessoas - uma recepcionista, 2 enfermeiras e 2 médicos veterinários. O movimento não era muito diferente do que temos aqui, mas como havia pessoal para fazer cada um a sua tarefa, tudo era mais organizado. Em vez de parecer que ando "a tapar buracos e a remediar tudo às 3 pancadas", poderia ter tempo para estudar novos tratamentos, falar com colegas, propor o melhor para cada paciente.
Enquanto isso não acontece. Estou sempre aqui, para si!
