Há anos que passo por esta igreja. Sempre pensei em entrar, para ver como é. Mera curiosidade de ex-aluna de Arte.
Encaminhei-me para a entrada, onde quatro portas estavam aparentemente fechadas. Só à terceira tentativa consegui acertar na porta correcta. "Porquê que é tão difícil entrar nas igrejas?" - pensei, enquanto abria a porta e entrava.
Estaquei e fiquei em choque com a diferença entre o exterior e o interior. Não, porque fosse a mais bela igreja, mas porque, como todas as igrejas pouco frequentadas, era mesmo silenciosa. Parecia que ali o tempo não passava. As estátuas deviam ganhar pó e ficar em permanente estado de feliz sofrimento...permanentemente.
Estive assim parada, até levar com a porta nas costas e um subtil pedido de desculpas. Afastei-me e sentei-me no primeiro banco. Quem entrou era uma senhora, que vinha visitar o seu templo. Seu, porque, apesar da calma que senti ali, não consegui evitar sentir-me culpada por fazer barulho a respirar e romper aquele silêncio sagrado.
A senhora fez aqueles gestos, próprios de veneradora profissional, e sacou do porta-moedas. Avançou até ao seu Santo preferido e ofereceu-lhe a sua cunha oferenda. Como se ao oferecer dinheiro, estivesse a fazer o seu desejo chegar mais rapidamente aos ouvidos do grande Senhor.
Fechei os olhos e aproveitei para meditar, ou tentar deixar de pensar. Doía-me a cabeça. Um telefone começou a tocar estridentemente. Olho para o lado com a minha melhor cara de "a sério?". Uma senhora atente:
- Está. - diz, como se estivesse em casa - Sim. Estou na igreja de S.Pedro.
- Onde?? - ouve-se do outro lado.
- Na igreja de S.Pedro! - diz a mulher mais alto - Vais chegar a horas? Está bem. Boa viagem.
Fim da conversa. O que é que esta gente vem aqui fazer? Trazem os seus terços de madrepérola e rezam uns "Avé Marias" para parecerem religiosos respeitáveis, e depois nem o básico respeito conseguem ter por quem está num local supostamente sagrado. Eu estava ali simplesmente pelo silêncio, mas havia quem estivesse por razões superiores.
É por estas e outras razões, que a Igreja nunca me vai ter, embora as igrejas possam ter a honra de, ocasionalmente, darem assento ao meu traseiro; não porque quero pedir favores, ou ouvir falsos moralistas, mas porque é fresco, silencioso e óptimo para descansar depois da subida que a precede.