quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Top 10 do Luís - Séries Favoritas PARTE II

A segunda parte do meu ansiado TOP 10

5º Boardwalk Empire – Ouvi falar desta série num episódio do Conan O'Brien. Desde esse dia que passou automáticamente para o meu Top 10. Scorcese + Máfia + Steve Buschemi + Michael Shannon + Kelly McDonald + Michael Pitt + Marcia Gay Harden = Uma das melhores séries que já vi.

4º Seinfeld – Esquecendo por momentos que Seinfeld é a melhor e mais popular sitcom de sempre, um dos motivos que me levam a colocá-la no topo das minhas preferências é a sua  repetibilidade. Ver Seinfeld é como ouvir as minhas músicas preferidas. Vezes e vezes sem conta até me fartar por algum tempo (isto acontece raras vezes) e voltar a ver pouco depois. 


3º  Sete Palmos de Terra ("Six Feet Under") - Comecei a ver este série com 14/15 anos mas acabei por desistir. Era demasiado dramática. Tinha cenas gays. Uns anos mais tarde voltei a vê-la e a revê-la e a revê-la. Não deixou de ser dramática e as cenas gays ainda lá estavam, mas uns anos a mais fizeram a diferença entre não gostar e ficar reverente face a uma das melhores criações de Allan Ball e da HBO. Daqui a uns anos volto a dar uma oportunidade ao Transformers 3.



2º Irmãos de Armas (“Band of Brothers”) – Sabem qual é o maior ser vivo do mundo? Pensem lá... Elefante? Baleia? Cachalote? ... Acabou o tempo. A resposta certa é Armillaria ostoyae. Com 8.9km² é de longe o maior ser vivo à face da Terra. Esta resposta é improvável. Um elefante parece enorme. Uma baleia parecer maior. É difícil alguém pensar que um conjunto de cogumelos minúsculos faz parte de algo incomensuravelmente maior que 50 desses animais juntos. É por isso que quando me perguntam qual é a melhor personagem de sempre, pode parecer estranho que eu responda: a Easy Company.

Em Irmãos de armas não há uma personagem principal clássica. Dick Winters é quem mais tem relevo e praticamente desaparece cinco episódios volvidos. Ficamos a conhecer Bill Garniere (old gonorrhea), Joe Toye, Buck, The Bull, Perconte, Sobel e muitos muitos mais. Vi a série três vezes e não me lembro de metade dos seus nomes mas, se lhes visse a cara neste momento, provavelmente lembrar-me-ia de um episódio ou de uma cena ou de um diálogo.
Sei que vão ficar sempre comigo (se o Alzheimer não se intrometer) cenas desta série.O grito Currahee, a corrida de Spears pelas linhas inimigas, o primeiro tiro do Winters no rapaz polaco, o ultimate own do Winters ao Sobel; e principalmente as palavras finais do episódio dez (que não irei privar ninguém de as ouvir pela primeira vez, para que possam chorar baba e ranho como eu de cada vez que as oiço). São cenas que não dirão nada a quem nunca viu a série mas que certamente porão um sorriso nos lábios a quem se lembre delas.



1º Os Sopranos (“The Sopranos”) – O Padrinho na televisão! Não poderia haver maior elogio. Foram seis temporadas em que a família Soprano me entrou primeiro pela televisão e depois pelo computador.
Foi-me impossível ficar indiferente ao carisma de Tony, à sua família e à sua outra família. Um mafioso psicopata que entre prostitutas, drogas e assassinatos arranja tempo para ir à psiquiatra. Imperdível.


sábado, 5 de novembro de 2011

"Memórias de uma Gueixa" - Arthur Golden

Arthur Golden, historiador especializado em arte japonesa, criou com este romance uma janela para uma época onde as gueixas reinavam no Japão.

Este bestseller narra a triste vida de Chiyo e de como esta consegue tornar-se numa das mais famosas gueixas de todo o Japão, abdicando de muitos sonhos e perdendo quase tudo na vida. 

Apesar de ser uma história de ficção, Arthur Golden consegue fazer-nos penetrar num mundo que nos parece real e simultaneamente tão diferente do nosso; com crenças e costumes que em nada se assemelham aquilo que esperaríamos encontrar, numa época semelhante, no nosso velho continente europeu.

Muita gente ainda pensa que as gueixas não eram nada mais do que prostitutas “chiques”. Também eu o pensava, até ler as “Memórias de uma Gueixa” e entender que há muito mais por detrás do conceito de gueixa e de toda a cultura japonesa. 

Gostei muito desta obra, porque já há algum tempo que acho o povo japonês bastante curioso. Encaram a vida de forma tão diferente da nossa maneira ocidental, que realmente me fascina. Um exemplo desta diferença tão acentuada esteve realmente em evidência na calma que demonstraram, quando ocorreu o trágico sismo e tsunami. 

Este livro não foi mais do que um pequeno vislumbre daquilo que define este povo, mas ainda assim foi um bela vislumbre. (5/7)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Top 10 do Luís - Séries Favoritas


Este fim-de-semana decidi copiar a Luísa e o seu top 10! Decidi que vou copiar todas os temas que ela escolher (por favor não te lembres de fazer um top 10 de cosmética, ou terei de tornar público o meu lado mais feminino) e dar o meu parecer sobre o tema com o meu top.
É difícil escolher só dez séries. Vejo séries desde que me lembro - o que é maior testemunho da minha fraca memória do que da antiguidade deste hábito. Não comecei por ver grandes séries. Lembro-me de uma série de um wrestler chamado "Cry Baby" passar às oito e meia na RTP2 (antes da abreviação para o epíteto incomparavelmente mais apelativo: "2"). As memórias melhoram quando me lembro que foi nesse horário que vi Friends ou Simpsons, mas fluctuam quando penso em Dharma and Greg ou Sabrina: A Bruxinha Adolescente.
Quando convenci os meus pais a deixarem-me ficar a pé depois do Vitinho (versão old school dos Patinhos), comecei a ver grandes séries. Às 22:45, se a memória não me falha, começaram a passar alternadamente pérolas como Dexter, Os Sopranos, Sete Palmos de Terra e outras menos épicas, mas que igualmente me faziam reservar uma hora todos os dias Anatomia de Grey, Ossos, Sobrenatural, Fringe, E.R., Anjo Negro(blherg!).

Foi com a Internet que comecei a tornar-me snob. Achei-me bom demais para algumas séries; achei outras más de mais. Comecei a ver um ou dois episódios e a desistir delas, porque sabia que tinha um poço sem fundo por onde escolher. Mesmo assim, ainda hoje algumas das minhas séries favoritas foram as que comecei a ver na televisão que agora está a ganhar pó.
Depois desta introdução, fica aqui o meu top 10. 
 

Top 10 da Luísa - Séries Favoritas


Este fim-de-semana decidi começar um novo costume aqui no Blog - O TOP 10!

Neste primeiro post escolhi falar das minhas dez séries televisivas favoritas:

 
1º Sete Palmos de Terra (“Six Feet Under”) – Criada por Alan Ball, esta série dramática acompanha a vida de uma família que gere uma empresa funerária.  Por si só, isto seria o bastante para tornar “Six Feet Under” invulgar, mas esta série televisiva é muito mais do que isso. Ainda hoje a morte é um assunto que me assusta (A QUEM É QUE NÃO  ASSUSTA?!),mas depois de vermo esta série ficamos com uma sensação de calma e sentimos que entendemos melhor a morte; passamos a encará-la de forma diferente. Estaria por isso a mentir se dissesse que esta série não mudou em nada o meu mundo; foi definitivamente a série televisiva que mais me fez pensar e mudar a minha maneira de aceitar a morte como algo natural, e não como aquele bicho feio de sete cabeças. 


2º Foi assim que Aconteceu (“How I met Your Mother”) – Simplesmente a minha sitcom favorita. Faz-nos desejar ter aqueles amigos, que fazem a vida parecer tão simples. E mesmo que não seja essa a realidade que nos rodeia, não podemos deixar de pensar que não importa, desde que possamos vê-los na TV.

3º Guerra dos Tronos (“Game of Thrones”) – Inspirada nas “Crónicas do Gelo e do Fogo” do escritor George R.R. Martin, é a melhor série que já vi na categoria do Fantástico. Até agora tem feito jus à sua versão literária, que é igualmente MUITO boa e viciante.


4º Sangue Fresco (aka “True Blood”) – Já estive mais apaixonada pela série. A verdade é que as duas últimas temporadas têm-me surpreendido pela negativa. No entanto, adorei as duas primeiras. Inspirada nos romances de Charlaine Harris, "Sangue Fresco" narra a história de Sookie, uma empregada de balcão com o poder telepático de ler mentes, excepto mentes de vampiros. Pois! Porque nesta série os vampiros finalmente resolveram integrar-se na civilização humana. 


5º Sexo e a Cidade (aka “Sex and the City”) – Detesto os filmes, mas adoro a série. Representa aquilo que eu nunca na vida conseguiria ser (uma pêga?). No entanto, não deixa de me fazer rir, principalmente com a Samantha Jones (Kim Cattrall) que é sem dúvida a melhor personagem da série.


6º The Walking Dead – E se todos os seres humanos que te são queridos fossem infectados por um vírus mortal que, ainda para mais, os transformava em zombies? Será que farias parte dos sobreviventes? Ou será que eras o primeiro a sucumbir? É uma história que já está um pouco batida, mas penso que a versão do pequeno ecrã foi muito bem conseguida.

7º Misfits – À primeira vista e, avaliando pelo genérico, não passa de uma série de segunda categoria. Ups! Afinal não! É apenas uma série britânica (daí a falta de efeitos especiais em condições). Uma cidade é afectada por uma tempestade fora do normal, e os seus habitantes são afectados de um modo muito invulgar – ganham superpoderes. Gosto da ideia, gosto da história e gosto do humor.


8º OC ("OC- Na Terra dos Ricos") - Não é uma série espectacular, mas foi uma série que acompanhei com alguma ansiedade durante a minha adolescência e sem dúvida que deixou marcas. Além disso, só pelo simples facto de matarem uma das personagens principais vale a pena dar uma olhadela.


9º Anatomia de Grey (“Grey’s Anatomy") – Outra série que já teve melhores dias, mas que me prendeu durante muitas horas em frente ao ecrã.


10º Dr. House (House MD) – Que posso dizer? Gosto do Homem!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"Salvador"

por Andreia Silva,
24 anos


O dia estava a chegar ao fim. Estava naquela hora em que a noite ainda não chegou e o dia ainda não foi embora. Aquele Outono chegou com cara de inverno. Contrastando com os dias anteriores, a chuva nesse dia não fez questão de aparecer, dando lugar ao sol e consequentemente ao frio. Mas ela sempre preferira o frio de rachar, preferencialmente pintado de branco, à chuva, que era incomodativa. 

Tirou da bolsa as luvas guardadas desde que o sol lhe começara a aquecer as mãos, mas agora que esse tinha ido embora, não as podia dispensar. Em tempos, quando andava com o coração a ferver e em chamas, não se importava com as temperaturas negativas a tocar-lhe as mãos. Mas agora não, o calor, perdeu-o todo, naquela tarde fatídica de Junho quando uma onda, uma simples onda, levou uma parte integrante de si, um ramo do seu tronco, o calor inflamado que fazia arder o coração e as mãos. E agora tinha de usar luvas. E ela que nunca tinha gostado de luvas. 

Começou a sua caminhada habitual pelas ruas tão conhecidas, até casa. O percurso era tão rotineiro que nem precisava de pensar. Os pés quase que iam sozinhos. E ultimamente era assim. Ela limitava-se a ir para onde os pés a levavam. Se eles, num instante, não mexessem mais, ela fazia-lhes a vontade e parava onde quer que estivessem. O mundo já não fazia sentido. Mesmo com toda a gente sempre do lado dela, a mãe, os amigos, até os colegas de trabalho para quem nunca tinha falado, lhe vinham dizer que podia contar com eles. Mas ela já não se sentia parte deste mundo. Só queria viver o mais rápido possível para voltar a ter o calor de volta ao seu coração. 2
Entrou em casa e encontrou a mãe e o “sobrinho”, como apelidava o menino de quem a mãe tomava conta desde que era um bebe. E este encontro tinha-se tornado habitual nos últimos tempos. Por esse hábito já considerado rotineiro, não percebeu de imediato que algo se passava. O pequeno reguila não fez jus ao nome e, não veio a alta velocidade agarrar-se às suas pernas e averiguar se haveria algum presente para ele, escondido entre as coisas dela. Ao invés disso estava num estado completamente apático a olhar para a parede. Procurou a mãe pela casa toda, até que a foi achar na varanda agarrada ao telemóvel com uma cara capaz de assustar um morto.

- … mas olhe, assim que souber de mais alguma novidade, peço-lhe que me telefone. O Salvador está muito assustado. Obrigada. Com licença.

- Mãe, que é que se passa? E não tentes dizer que está tudo bem e que não é nada para me poupar, porque está visto que aguento com qualquer coisa.

- É que…a Vera vinha hoje mais cedo buscar o Salvador para irem passear e… nós estávamos na porta a vê-la chegar e… devias ver o sorriso dele, estava tão feliz, mas depois…

- Depois o quê? Mãe, diz-me por favor o que se está a passar!

- … depois veio um carro que não a viu ou viu mas não consegui travar, olha não sei… a Vera foi atropelada e o Salvador assistiu a tudo.

Ela queria dizer tudo, queria dizer alguma coisa que fosse, mas nada lhe saia. Só conseguia pensar no pequeno reguila e no que ia ser dele sem aquela mãe, já que pai nunca soube o que era. Tinha três mães, uma mais mãe, como ele dizia sempre. 3

- A Vera… morreu?

- Não, mas o estado é considerado muito grave. Não se sabe se irá sobreviver!

Ela correu para a sala e encontrou-o no mesmo estado. Estado que ela conhecia tão bem, infelizmente! Estado de quem não sabe como viver daqui para a frente, estado de quem reza para que tudo o que está a acontecer seja um pesadelo e que o despertador toque o mais rápido possível. Tinha medo de falar, não sabia se ele quereria estar sozinho, mas uma criança do alto dos seus cinco anos não deveria ter que conhecer a palavra solidão.

- Então pequenino?! A mãe vai ficar boa, pensa que sim e isso vai acontecer. Sabes que ela não gosta de te ver triste.

- A culpa foi minha! Eu pedi-lhe tanto para irmos passear. Ela vai embora… para o céu?

E nesse instante fez o que ainda não tinha conseguido: chorar. Chorar como choram as crianças de cinco anos quando percebem que perderam para sempre alguém que amavam, chorar como choram as crianças de cinco anos quando se sentem desprotegidos porque lhes roubaram a capa de protecção e mataram o seu super herói. Amarrou-se a ela e ela deixou-o ficar o tempo que ele quis. Nem tinha reparado na mãe, encostada à porta, à espera do momento certo para entrar, se é que naquela altura, havia um momento certo que fosse, para o que iria acontecer. 4

- Ah mãe, estás aí! Coitadinho, adormeceu de tanto cansaço. É bom que ele durma. Assim enquanto dorme tem sonhos bonitos. Já ligaram do hospital? Há novidades? Que cara é essa?

- A Vera não resistiu aos ferimentos…

E agora ela também chorava, não tanto pela Vera, com quem poucas vezes se tinha cruzado, mas por aquele menino que ia ter uma mudança tão grande na sua pequena vida. E ela sabia tão bem, demasiadamente bem o que era perder alguém assim, desta maneira, por nada e do nada. E ninguém merecia ter essa dor tão intensa escrita nas páginas da vida, muito menos num caderno que ainda mal tinha estreado.

Com a agitação que elas fizeram, Salvador despertou.

- Vocês também estão tristes?

- Salvador, olha para mim. Tenho que te dizer uma coisa, mas quero que saibas que nunca vais ficar sozinho, eu vou estar sempre aqui para ti e nunca te vou abandonar. A tua mãe vai gostar sempre de ti, sempre, e vai olhar sempre por ti e vai fazer com que tu sejas muito feliz. E tu podes continuar a gostar dela da mesma maneira. Porque ela lá de cima, do céu, vai sentir isso. Está bem pequenino?

Ele acenou com a cabeça, como se o sono o tivesse feito compreender essa parte, de que a mãe não o queria ver triste, de que a mãe apenas o queria feliz e que, onde ela estivesse, iria para sempre gostar dele e guiá-lo no melhor caminho, e abraçou-se a ela. A mãe dela tinha lágrimas nos olhos pois sabia que o ela sabia o que Salvador estava sentir e que se revia naquele menino. Reviam-se na dor um do outro e era isso que os unia.

- Tu não tens filhos pois não?

- … tenho Salvador, mas já não está cá.

- Também foi para o céu?

- Foi.

- Podes ser a minha nova mãe?

Foi a partir desta inocente pergunta, sem qualquer intenção que se sobrepusesse à intenção de querer uma mãe, que tudo mudou. Ela nunca tinha pensado nessa possibilidade nem em pensamentos remotos, nem com Salvador, ou qualquer outra criança. Para ela não havia mais nenhuma razão para se levantar de manhã, além de ter um coração ainda a bater no peito. Perante falta de qualquer resposta, Salvador, apenas a abraçou revelando que naquele dia, deixara de ser uma criança que pensava com cabeça de cinco anos.

- Não fiques triste! Eu não fico triste se não quiseres ou se não puderes ser a minha nova mãe.

- Oh pequenino… eu gostava muito de ser tua mãe.

- A sério? Achas que a minha mãe fica zangada comigo?

- A única coisa que ela iria querer era que tu estivesses feliz. Acima de qualquer coisa, ela vai ser sempre a tua mãe. Nunca ninguém vai ocupar o lugar dela.
 
E a partir daqui, ela e o pequeno reguila viveram lado a lado e redescobriram que a vida nos leva por caminhos mal traçados e até mesmo tortos, com muito sofrimento em todas as paragens, mas que na meta há sempre um letreiro a dizer: bem-vindo à felicidade. 

No dia da oficialização da custódia do Salvador, atribuída a ela, foram correr para a praia, libertar toda a alegria e deixá-la fluir pela natureza. O Salvador tinha dito que queria gritar tanto para o som poder chegar à mãe, e ela ficar a saber “que tenho uma nova mãe, mas que ela vai ser sempre a mais mãe”. Estafados deitaram-se numa duna. 

- Vou passar a chamar-te Sal!

- Sal? Mas isso não é o que pões no arroz e quando pões muito o arroz fica muito salgado e dá muita sede? 

- Sim… É como tu! Deste um novo gosto à minha vida e dás – me muita sede de viver!

domingo, 23 de outubro de 2011

"Navegador de Sonhos"

Por: Leila Rosado,
13 anos

Era uma vez um rapaz chamado Gustavo Miguel Silva Ente. Nasceu a 20 de Setembro de 1437 em Sagres, Algarve, Portugal. A sua mãe era doméstica e o seu pai era pescador. A sua infância era composta por aventuras, sonhos e mistérios. Uma vez foi pescar com o pai para ver a sua maior paixão: o mar! O pai estava a pescar com ele, quando no horizonte surgiu um grande navio, cheio de gente a gritar de felicidade. Então Gustavo perguntou ao pai:
- Pai, que navio tão grande! E está cheio de pessoas felizes. Porque é que elas estão tão felizes?
- Devem trazer riquezas vindas de longe. Sabes, aqueles senhores são navegadores, homens que vão a serviço do rei descobrir novas terras e novos produtos.
- Uau! Quem me dera ser um navegador! Eu adoro o mar!
- Sim filho, isso também eu gostava, mas nós vivemos em Sagres, a ponta do Algarve. Se queres ser navegador tens de fazer vários cursos e estudos e ir até Lisboa onde o rei te tornará oficialmente navegador. Mas por enquanto sonha só em ser pescador, já é uma boa forma de estares perto do mar…
            Gustavo adorava ver o pai a pescar e adorava as palavras “peixe”, “mar”, “ondas” e “aventuras”. Mas devia ser incrível ser um navegador…
Com dez anos entrou para a escola. As suas disciplinas preferidas, como é óbvio, eram Geografia e História. Sempre que lhe perguntavam qual a sua profissão futura respondia: “navegador, navegador de sonhos” para viver em harmonia com o mar.
            Quando fez dezoito anos e acabou a escola, onde tinha tirado um curso de navegação, perguntou ao pai:
- Pai, posso ir tornar-me navegador à capital deste nosso país? É o meu maior sonho e tu sabes disso.
- Meu filho, já és adulto! E como tal, deixo-te ir a Lisboa. Se te tornares navegador, lembra-te de ter cuidado, e boa sorte!
            Despediu-se dos pais e foi a caminho da capital, no seu cavalo branco chamado Apolo. Tinha-lhe sido oferecido pelo pai quando fez 14 anos. Ia a sair de Sagres quando viu um homem vestido de negro, com um grande e comprido chapéu, usando bigode e com uns olhos brilhantes como estrelas. Gustavo perguntou-lhe:
- Vai para Sagres? Quer dizer… só pode ir, é a única terra que há para aquele lado.
- Sim jovem, por acaso vou. Vim agora de Lisboa, de  uma viagem de navegação.
- Eu dou-lhe boleia até Sagres. Já agora, como se chama?
- Henrique. Infante D. Henrique.
- Já ouvi falar de si, é um grande navegador!
            E lá foram os dois a conversar sobre as aventuras de Henrique. Contou-lhe que foi a África e que gostava de ir à Índia. Gustavo disse-lhe que se ia tornar navegador e que iria até à Índia realizar o sonho de Henrique, ao que este respondeu
- Obrigado, eu já estou um pouco velho. Já não tenho condições para navegar. Mas deixo-te o meu projecto de navegação para a Índia.
            Gustavo aceitou o projecto, deixou Henrique na Fortaleza de Sagres (construída há pouco tempo) e seguiu para Lisboa.
            Era maravilhoso! Gustavo estava na capital do comércio, junto de grandes navegadores, a estudar para ser navegador e viver junto do seu maior tesouro: o mar! Ficou por lá a estudar um ano. Quando finalmente terminou o curso, apresentou-se no palácio real para ser oficialmente declarado navegador. Na varanda do palácio, o rei exclamou para uma extensa multidão:
- Súbditos, navegadores, amigos. Estamos aqui reunidos para declarar este homem como navegador. Fará muitas viagens no mar e viverá muitas aventuras por este mundo fora. Agora, incline-se por favor…
            Gustavo obedeceu e o rei, num acto solene, disse:
- Eu, Tiago, rei de Portugal, declaro-te a ti, Gustavo Ente, navegador e descobridor português.
            E dito isto, pousou o ceptro real em Gustavo. De seguida houve um enorme aplauso por parte da multidão. Gustavo estava muito contente. Ia ficar instalado no palácio real até ao dia seguinte. Nessa mesma noite ele e o rei conversaram de vários temas, e um dos assuntos foi que o rei iria enviar uma carta real aos pais de Gustavo para lhes dizer que o filho já era oficialmente navegador real, e que iria navegar muito por esse mar fora, e que sempre que os pais quisessem podiam enviar-lhe cartas.
            Depois de  um grande jantar com o rei , a rainha e alguns nobres, Gustavo foi dormir e teve um sonho: sonhou que chegava à Índia, usando o projecto de navegação do Infante D. Henrique. Por lá encontraria imensas riquezas como ouro, prata, perfumes, sedas e porcelanas, e imensos comerciantes e mulheres indianas lindas. Faria imensos negócios e voltaria a Portugal, onde ficaria famoso. Foi um sonho muito feliz…
            No dia seguinte dirigiu-se para o porto de Lisboa onde iria fazer a sua primeira viagem. Mas não iria sozinho; consigo iam dois navegadores que também tinham sido declarados navegadores reais há pouco tempo. Gustavo olhou para eles sorrindo e entrou no barco. Uma multidão de gente estava no porto para os ver partir. A maior parte eram mulheres desgostosas por verem os maridos marinheiros ou navegadores partirem para mais uma longa viagem. Gustavo era solteiro, mas acreditava que o amor um dia lhe iria bater à porta e que um dia também teria a sua esposa para se despedir dele no porto de embarque.
            Gustavo sabia que a viagem iria ser longa, por isso foi ter com os seus novos colegas que estavam no convés. Um deles estava a dormir numa cama e o outro a ler um livro. Gustavo sentou-se e começou por falar com o que estava a ler:
- Olá, chamo-me Gustavo. E tu?
- Olá, chamo-me Artur Jesus e aquele que ali está a dormir é o Sérgio Antunes.
- Já o conhecias?
- Sim, nós dois somos de Lisboa. Andamos na escola juntos e em pequenos já brincávamos aos “piratas” e aos “barquinhos”.
- Vai ser um prazer conhecer-vos melhor e navegar convosco!
            Nisto Sérgio Acordou e apresentou-se a Gustavo. Falaram os três sobre vários assuntos e quando deram por isso já era noite. Antes de ir dormir, Gustavo falou com o homem do leme sobre a viagem e mostrou-lhe o projecto de navegação para chegar à Índia.
            Até chegarem a Arguim passarakm-se dois anos. Gustavo já conhecia Artur e Sérgio como a palma das suas próprias mãos. Já tinha escrito e recebido várias cartas dos pais. Em cada local que aportavam, Gustavo enviava para casa um produto típico dessa região, descrevendo esse mesmo produto.
            Passaram-se mais três anos. Agora estamos em 1460 e chegamos à Serra Leoa. Gustavo manda aos pais algum ouro e marfim. Passados alguns dias recebe notícias dos pais com uma novidade triste: o Infante D. Henrique tinha morrido. Gustavo fica triste com o que lê na carta e conta aos colegas e tripulantes o que se passou, tendo também eles ficado tristes.
            Passaram-se sete anos desde a morte do Infante D. Henrique. Estamos em 1467. Já se vê terra ao longe, mas ainda faltam algumas semanas para chegar ao destino. Estamos a 19 de Setembro e Gustavo diz aos amigos:
- Amanhã faço 30 anos!   
            No dia seguinte celebram o aniversário de Gustavo. Ele fica muito feliz porque acha que esta é a melhor maneira de celebrar: junto ao mar que tanto adora! Um mês depois chegam à Índia e o seu diário de bordo está repleto de histórias e aventuras da sua longa viagem marítima.
            A Índia é tão diferente de Portugal! As pessoas são um pouco mais escuras, mas têm uns olhos lindos. Mal a embarcação chega ao porto de Goa, os três navegadores foram recebidos por vários comerciantes e bailarinas indianas. E como elas eram bonitas! E os homens indianos eram tão simpáticos.
            Como chegaram pela manhã os navegadores foram procurar dormida numa estalagem, onde pudessem ficar vários dias. Durante o dia faziam muitos negócios e trocavam vários produtos: entregavam ouro e recebiam especiarias; entregavam prata e recebiam sedas; entregavam cobre e recebiam porcelanas. Tudo era igual ao sonho que Gustavo tivera. E algo de bom aconteceu…
            Depois de um dia estafante os navegadores foram para a estalagem descansar. Quando iam a caminho viram uma rapariga que estava a arrumar a sua banca de fruta. De repente deixou cair duas maçãs no chão e Gustavo, como cavalheiro que era, apanhou as maçãs e entregou-as à rapariga. Quando olhou para ela ficou fascinado, nunca na vida tinha visto uma mulher tão bonita: pele macia e aveludada, olhos verde-água cristalinos, boca pequena e carnuda e mãos bonitas. Gustavo, pasmado, disse:
- Você é muito bonita! Como se chama?
- Obrigado pelo elogio e por ter apanhado as minhas maçãs. Chamo-me Dária.
- Eu sou o Gustavo, navegador real. Vejo que sabe falar português…
- Sim, nós, os indianos, sabemos falar várias línguas por causa do comércio.
- Muito bem. Se precisar de alguma coisa estou nesta estalagem.
            No dia seguinte foram tratar de uma aliança entre Goa e Lisboa para facilitar os negócios, mas Gustavo não conseguia deixar de pensar em Dária. Conseguiram a aliança esperada e sabiam que o rei ia ficar contente!
Nessa noite Gustavo ganhou coragem, procurou Dária e disse-lhe que estava apaixonado por ela. Estava quase na hora de regressar a Portugal e Gustavo pediu aos pais de Dária autorização para namorar com ela e para levá-la com ele na viagem de regresso. Os pais pensaram durante alguns dias, mas acabaram por dar autorização, embora tivessem pena de a sua filha ir para tão longe da Índia.
Regressaram então a Portugal, com uma longa viagem pela frente. Ao chegarem, Dária ficou em casa dos pais de Gustavo, enquanto ele foi até Lisboa com os colegas navegadores dar as boas noticias ao rei e falar-lhe dos bons acordos comerciais que tinham conseguido. O rei ficou muito feliz com as novidades e muito orgulhoso dos seus navegadores. Mas mais feliz estava Gustavo, pois na Índia tinha descoberto o amor.
            E assim acaba a história deste “navegador de sonhos”, que graças ao seu maior amigo – o mar – encontrou novos amigos e colegas navegadores, uma esposa linda e dedicada, que lhe deu vários filhos, que no futuro deverão ser navegadores, tal como o pai.