segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Quando a universidade acaba - coisas que eu gostava que me tivessem avisado.

Há um ano atrás estava em processo de conclusão e entrega da dissertação de mestrado. Olhando para trás parece que foi há muuuito tempo. O que é certo é que estava longe de estar pronta para o pós-universidade. 

Foram 6 anos a marrar e a viver de um orçamento limitado, oferecido pelos pais. O que eu mais queria era despachar-me e começar a viver a minha vida, economicamente independente a fazer aquilo que gostava e sem ter de consultar ninguém; Comprar livros sempre que quisesse, viajar e conhecer o mundo, decorar o meu quarto como eu queria, ter mil animais, fazer uma tatuagem rebelde, etc etc. Que inocente. Porquê que ninguém nos prepara para o que realmente acontece (ou porquê que não ouvimos??).

Quando entreguei a tese corri a arranjar um emprego e consegui-o muito facilmente. Não pensei seriamente se seria o ideal para mim, porque na altura eu queria era começar! E comecei. No espaço de dois meses, tinha acabado o curso, estava inscrita na Ordem dos Médicos Veterinários, tinha o meu primeiro emprego, mudei de cidade e arranjei o meu apartamento com o meu namorado, estava a fazer as primeiras cirurgias sozinha (coisa que não acontece em todo o lado...tive muita sorte nesse aspecto) e sentia-me acelerada. Talvez demais. 

Lentamente a depressão começou a instalar-se. Não ajudou o facto de uma semana depois de me mudar, o Figo (o meu gato de 13 anos) morrer de forma súbita. A verdade é que até aquele momento o meu objectivo tinha sido acabar o curso e começar a trabalhar. Desde o infantário, que o meu ano estava planeado, de acordo com o calendário escolar. Havia uma ordem nas coisas: 1º ano, 2º ano, 3º ano, 4º ano....12ºano, 1º ano de universidade... Agora que estava tudo encarreirado, sem testes e sem notas finais, senti-me perdida. Não tinha nenhum objectivo. Os dias foram-se repetindo, as horas extra foram se acumulando e a minha frustração e desmotivação foram crescendo. 

Acima de tudo eu não tinha conseguido prever que a veterinária não ia chegar e que ia, inclusive, tentar roubar-me a identidade. Fazia-me falta a bicicleta, a corrida, o tempo para ler, os vídeos parvos e os amigos para conviver. Outra coisa que também não ajudava era comparar o meu trajecto profissional e satisfação ao dos meus colegas recém-licenciados. "Ele está feliz...também deveria estar." Não. Toda a gente é diferente e toda a gente precisa de tempo, para perceber o que o faz feliz. Adoro ser veterinária, mas gosto ainda mais de não ser só isso.

Gostava que alguém me tivesse avisado, que quando acabasse o curso eu não ia fazer a mínima ideia do que queria, ou de para onde ia. Que ia errar, escolher mal, precipitar-me e arrepender-me, mas que ia sobreviver e ultrapassar. Acredito que existam aquelas pessoas super ambiciosas, com uma vontade de ferro e ganas de ser especialista em xyz. Eu só quero ser feliz e continuar a sentir-me curiosa, não apenas em relação à minha profissão, mas também no meu dia-à-dia. Sei lá o que se vai passar...




 

7 comentários:

Ângela disse...

Acho que te percebo. Lembrei-me logo que tenho colegas que desde que acabámos o curso (há 10 anos) arranjaram logo emprego num Colégio e têm estado todos estes anos com horários completos e a trabalhar naquilo para o qual estudámos enquanto que eu (e muitas outras) andamos aqui estes anos a trabalhar em mil e uma coisas diferentes, a tentar desenrascar-nos. Confesso que tenho alguma inveja da situação delas, mas também acho que, por mais importante seja o trabalho, sou feliz como sou, embora o meu percurso não seja aquele que eu queria quando acabei a Universidade. Mas há muitas mais coisas para além do trabalho, certo? :-)

M.J. Cruz disse...

Ninguém sabe o que é ser adulto. Vamos inventando e desenrascamo-nos como podemos. No teu caso, parece que precisas de definir prioridades, mas não sei até que ponto a tua carreira profissional te poderá deixar fazer isso. De qualquer maneira, nunca é saudável compararmo-nos com outras pessoas.

Como disseste, somos todos diferentes com objectivos também diferentes.
Não te culpes por isso, ainda te estás a descobrir e não há resposta certa para a vida. É bom reconheceres que algo está a faltar e não está bem, agora podes começar a procurar a resposta.

Ana Luisa Alves disse...

O nosso emprego, por mais exigente que seja, nunca deve ser a única coisa que nos define. O problema é que somos programados a pensar que é através do emprego que vamos conseguir toda a nossa satisfação pessoal. É importante gostar do que se faz. Não coloco isso em causa, mas é extremamente aborrecido quando só consegues falar sobre isso, porque sem o teu emprego nao tens/és nada. É difícil na minha área. Acredito que seja possível.

Ângela disse...

Concordo que o emprego não deve ser a coisa que nos define. Uma vez uma psicóloga disse que as pessoas quando se apresentam indicam logo a profissão, como se essa fosse a coisa que as definisse. Tipo, "sou a Ana Luísa, veterinária, etc". Realmente dá que pensar. Não seremos mais do que isso?

Não achas boa ideia fazeres outro tipo de atividades para além do emprego? :-) Não sei se já fazes. Eu andei em aulas de guitarra durante 3 anos, entretanto desisti e estou há 6 anos na natação. Dou catequese há milhentos anos. Parece que não, mas ter atividades extra faz muito bem a nível mental.

Ana Luisa Alves disse...

Claro que faz, mas o problema é ter tempo livre XD o meu horário é das 10 as 12.30 e das 15 as 20 (que raramente são 20). Ao sábado tb trabalho e fim de semana sim fim de semana não, não posso ir a lado nenhum, porque estou de urgência... Coisas que gostaria de fazer nao faltam. Falta é tempo e não estar cansada o tempo todo. O pouco tempo livre uso o para estar com a família e os amigos e é isso. Não dá para mais.

Ana Luisa Alves disse...

No início deste emprego ainda me inscrevi no ginásio. Acontece que ia por obrigação e nas semanas que estava de urgência nem podia correr a vontade, que as pessoas passavam a vida a ligar, a maior parte das vezes por coisas que nem eram urgentes... Tipo "socorro! O meu cão tem gases! E agora?!" ... E é essa gente que me tira do sério XD devia ser possível ser veterinária sem ter de aturar idiotas!!! So cuidar dos animais e pronto!

Ângela disse...

Lol. Também devia ser possível ser professor e só dar aulas às crianças sem aturar alguns dos pais.